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População em situação de rua em Campinas: Reivindicação por Humanização no atendimento em Prontos-Socorros, PAs e Centros de Saúde

População em situação de rua em Campinas: Reivindicação por Humanização no atendimento em Prontos-Socorros, PAs e Centros de Saúde

No dia 21 de maio ocorreram os grupos de trabalho da IX Conferência   Conferência Municipal de Saúde. Um deles foi o GT “Saúde e Direitos de Cidadania”. A Carta entrevistou Rose Gimenes, delegada, que é assistente social do Sares (Serviço de Acolhimento e Referenciamento Social), um  equipamento público, localizado à Rua Regente Feijó, 824, Centro.

Nesta entrevista ela nos conta do desafio que envolve a abordagem de itinerantes e migrantes nas ruas, e das dificuldades enfrentadas na condução dos casos quando se trata dos problemas de saúde.

Carta da Saúde – Como que você avalia este espaço de discussão sobre as especificidades da população para Acolhimento no SUS e de você poder participar deste momento?

Rose Gimenes: Eu participo enquanto segmento de usuários do SUS no território do Distrito de Saúde Leste e estou aqui para defender os direitos da população em situação de rua. Considero que é um espaço muito importante de discussão, considerando-se que ainda hoje existe muita discriminação com relação à população em situação de rua, seja no agendamento de consultas, que acabam sendo marcadas para daqui há dois ou três meses, o que leva, à perda desse usuário, uma vez que não conseguimos localizá-lo, tendo em vista tratar-se de uma população rotativa que não permanece no mesmo local, ou ainda, muitas vezes, no dia da consulta, não consegue ir porque pode, por exemplo, estar sob efeito de álcool, ou de outras substâncias psicoativas (múltiplas drogas) e não tem condições de ir à consulta. Avalio a Conferência Municipal de Saúde um espaço para estar reivindicando a Humanização nos atendimentos dos PAs, dos PSs e dos CSs, pois não adianta dizer que existe uma Política, pois não existe. O que existe é, eu conheço algum profissional do PA que é sensível à questão da população em situação de rua, então este profissional acolhe, atende e discute o encaminhamento do caso, no entanto na mudança de plantão, todo esse trabalho se perde, vem uma outra equipe que não tem o mesmo olhar e dá alta para a rua. Assim o espaço neste fórum é muito importante para discutir essa questão,  as peculiaridades, especificidades da população em situação de rua. Tratar os desiguais como iguais, para mim é só reforçar a exclusão. Não adianta chegar em um PA com uma pessoa intoxicada, ela vai ficar agressiva, violenta e resiste ao atendimento, aí coloca-se que não é desejo dela ser atendida, entretanto, naquele momento ela não apresenta condições para ter   o seu desejo respeitado, ela está intoxicada, precisa ser acolhida,  precisa ser cuidada…

Carta – Para que ela possa decidir depois…

Rose: Sim, depois que  passar o efeito. Mas não no momento que ela está intoxicada. Deve se considerar também a síndrome de abstinência, que é um período  muito crítico. Quando a pessoa está entrando na crise de abstinência,  levamos ao PA, se não há um olhar cuidadoso para esta questão, a equipe libera a pessoa para a rua, na realidade o que ocorre é que o contrato é mantido com os profissionais que têm um olhar sensível para a problemática, ou seja, não é uma política, porque se fosse de fato uma política para   de atendimento e atenção à população em situação de rua,  qualquer PA ofereceria o mesmo atendimento, teria o mesmo procedimento, bem como  não ocorreria a alta para rua na troca  de plantão das equipes.

Carta – Você consegue mapear, na Rede, onde ocorre este acolhimento que você considera adequado?

Rose: Nós do Sares, eu não vou falar pela abordagem de rua que hoje é realizada pelo SOS Rua, pois não sei precisamente para onde eles referenciam com maior frequência, se para o PA São José ou para o PA Centro. O Sares utiliza mais o PA Centro até porque essa população se concentra mais na região central. No PA Centro tem uma equipe de Saúde Mental que faz essa avaliação.  Mas é o que eu estou dizendo, conseguimos uma boa interlocução com essa equipe. Na hora que essa equipe sai, que muda o plantão, esse atendimento se perde, pois o referido atendimento é garantido por essa equipe que é sensível à problemática da população em situação de rua.

Carta – Você considera que está Equipe a que você se refere, desenvolve, na prática, o piloto do trabalho que poderia ser feito em outros PSs e PAs?

Rose: Com certeza. É uma atuação bastante qualificada. Mas que não deve se concentrar  somente nesta equipe. Não tem que ser só a Assistente Social do PA, não tem que ser somente esta Equipe de Saúde Mental, pois há outros profissionais: médicos, equipe de enfermagem, que também tem este olhar. Mas, ainda não são todos. Infelizmente não são todos. A dependência de substâncias psicoativas ainda é vista como mera opção. Quando se coloca a dependência como uma mera opção, você banaliza, pois tudo é opção. Ele bebe, é opção. Ele não quer atendimento, então abre-se a porta mesmo. E não é bem assim. Em alguns momentos ele não tem condições de decidir mesmo, aí permanecemos com ele até o momento que constatamos seu pleno atendimento. Não meramente referenciamos, acompanhamos, ficamos junto, permanecemos com ele, enquanto for necessário para que o atendimento não se perca.

Carta – Existem questões morais e de preconceito permeando este assunto?

Rose: Tem muito preconceito por parte de alguns profissionais. Do tipo: ‘Ele bebe porque ele quer”. Mas ser dependente não é uma opção. Não considero, não avalio  que seja uma opção. Muitas vezes a pessoa quer parar…

Carta – Você quer dizer que o uso pode ser uma opção, mas a dependência …

 Rose: Quando ele experimenta, a experimentação sim é uma opção, mas quando ele desenvolve a dependência química deixa de ser uma opção. Muitas vezes ele se torna refém, não consegue, não dá conta, pode até querer, mas ele não dá conta de lidar, por exemplo, com os sintomas de abstinência, ele não dá conta da situação. Então não dá para banalizar. Dependência química não é uma opção. Ser dependente químico não é opção. Experimentar sim é opção.

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2 thoughts on “População em situação de rua em Campinas: Reivindicação por Humanização no atendimento em Prontos-Socorros, PAs e Centros de Saúde

  1. Pingback: Editorial « Carta da Saúde

  2. Elisabete Aparecida Medeiros on said:

    Parabenizo esta moça, e toda equipe que trabalha com ela. Certamente ela faz seu trabalho com amor, a gente percebe isto pelo relato dela. Não deve ser fácil vc levar até o serviço de Saúde um
    usuário nas condições que ela relata e depois o mesmo não ter uma assistência digna, por causa do preconceito de alguns profissionais de saúde. Apesar disto acontecer com frequência, segundo o relato dela, ofereço aqui meu incentivo a ela e a todos que trabalham com a população de rua.
    Um trabalho muito louvável, a meu ver.

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