Carta da Saúde

Notícias do SUS Campinas

No cotidiano da Rede, a Linha de Cuidado da Hipertensão

Mudança nos padrões epidemiológicos em Campinas: A taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares, neoplasias e causas externas supera a mortalidade por doenças infecto contagiosas

Lívia Benavente Krützfeldt, Coordena a Saúde do Adulto, no Departamento de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas. Depois de realizado o evento no Dia Mundial da Prevenção da Hipertensão Arterial, Lívia nos enviou um relato sobre as atividades realizadas e respondeu às perguntas da “Carta da Saúde” sobre o enfrentamento à hipertensão no cotidiano da Rede. Confira:

“No dia Mundial da Prevenção da Hipertensão Arterial, 26 de Abril, estivemos na Praça Ruy Barbosa no Centro de Campinas, em parceira com alunos de enfermagem e nutrição, desenvolvendo ações de orientação sobre alimentação saudável, exercícios físicos e aferindo a pressão arterial das pessoas que ali transitavam.

Como sempre, houve grande adesão da população, que gosta de saber como anda sua pressão.  “Tirar“ a pressão é uma forma de mostrar-se preocupado com a saúde para grande parte da população. E as ações serviram de alerta a esse importante tema.

Mas no dia a dia dos nossos serviços a preocupação deve ser em como abordar de maneira efetiva os fatores de risco que levam a hipertensão arterial. Esse desafio está dado para todos os profissionais de saúde.

Trabalhar com grupos específicos de hipertensos diminui os fatores de risco para doença cardiovascular, o que é muito efetivo e importante.  Mas a abordagem para esses indivíduos em relação à prevenção pode também ser feita na família.

A prevenção da pressão alta pode ter como foco a população de crianças, adolescentes e adultos jovens, uma vez que a maioria ainda não está acometida por essa doença.  É pauta essencial nas reuniões das equipes de saúde da família.

São temas que devem ser priorizadas nas equipes, de modo intersetorial, a abordagem da alimentação escolar e as atividades físicas nas escolas.  O auxílio às famílias na escolha e preparação de alimentos mais saudáveis. Diminuição do sedentarismo e consumo de tabaco nos adultos jovens, debatendo junto às empresas a saúde de seu trabalhador, entre outros.

Essas ações transformam o trabalho das equipes, saindo da assistência individualizada e potencializando as ações coletivas, que são as bases da promoção á saúde e prevenção de doenças.

A linha de cuidado da Hipertensão Arterial deve ser construída levando em consideração a gama de fatores de risco que levam a doença. A prevenção dentro dessa linha de cuidado deve ser priorizada em nossas agendas e em nossos serviços.  E o enfoque familiar da prevenção amplia nossos alvos de ação para além dos hipertensos, qualificando e diferenciando o Sistema Único de Saúde”.

Carta da Saúde – Como é que a nossa Atenção Primária vem recebendo à demanda por cuidados nessa área?

Lívia Benavente Krützfeldt: A demanda de Hipertensos é crescente em nossas unidades básicas, e em geral, por ser uma doença silenciosa, o hipertenso já chega a unidade muito descompensado, em estágios avançados da doença, com comprometimento renal por exemplo, ou até após um episódio de Infarto. As unidades portanto tem duas funções importantes, monitorar os hipertensos já existentes e buscar ativamente os possíveis futuros hipertensos, através da avaliação dos fatores de risco para desenvolver a doença. Por isso, além de grupos de pacientes hipertensos,  a proposta de muitas unidades está sendo de fazer grupos de tabagistas, de alimentação saudável, que tem um caráter de mudanças de hábitos deletérios a saúde, servindo aos dois grupos.

Outra atividade que estamos propondo às unidades é a utilização da nova ficha do Sistema Hiperdia. O Ministério da Saúde tem uma proposta de implantar o sistema de cadastro dos hipertensos e diabéticos via WEB, como estratégia para o monitoramento dessas Doenças Crônicas Não transmissíveis (DCNTs), o que facilitaria o preenchimento dos dados e o  seguimento dos pacientes. Infelizmente esse sistema, prometido para Janeiro deste ano,  ainda não foi disponibilizado.  Mesmo assim optamos por trabalhar com a nova ficha de cadastro, que inclui a classificação de risco baseada em um escore biológico chamado Framingham, e pode ser utilizada tanto como cadastro como para o acompanhamento do paciente.

As ações estão em diferentes estágios nas unidades e Distritos:

– Reavaliação dos pacientes já cadastrados desde 2001, principalmente nos Distritos Leste e Noroeste que tem muitos pacientes cadastrados no Sistema Hiperdia antigo.

– Utilização do cartão do Hipertenso e da nova ficha como um cartão espelho para aprazamento dos pacientes, isto é, para detectar pacientes que deveriam voltar à unidade para alguma consulta ou atividade e não o fizeram, por equipe de referência das unidades.

– Discussão do processo de trabalho das Unidades em relação a linha de cuidado do Hipertenso a partir de uma avaliação de risco global ( risco biológico e vulnerabilidades), propondo ofertas diferenciadas para diferentes tipos de pacientes (consulta médica e de enfermagem quando necessário, sem a obrigatoriedade de número mínimo anual dessas consultas).

Todas essas ações estão sendo discutidas nos Distritos, nas Unidades e também junto ao grupo do Projeto Territórios, onde estamos acabando a revisão da Linha de Cuidado do Diabetes, sendo que o próximo protocolo a ser revisado é o de Hipertensão Arterial.

Carta – O que nossos Serviços devem considerar do ponto de vista da Vigilância em Saúde?

Lívia: A primeira consideração a ser feita é a da mudança epidemiológica que  Campinas e o Brasil estão passando. Há muitos anos a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares, neoplasias e causas externas tem superado a mortalidade por doenças infecto contagiosas. Mas continuamos trabalhando na lógica da notificação de agravos transmissíveis. Algumas iniciativas como a notificação de violência já nos mostra o caminho que temos que seguir.

A epidemiologia trata do diagnóstico de saúde de nossa população, enquanto a clínica cuida do diagnóstico individual de saúde. Quanto construímos linhas de cuidado para doenças crônicas estamos falando das duas vertentes, clínica e epidemiológica. Ainda mais quando se trata de uma doença que atinge 20% da população adulta como a Hipertensão.

Nossos serviços devem ter como ferramenta de trabalho indicadores epidemiológicos, são eles que orientam a clínica. O cadastro de pacientes hipertensos é o primeiro deles, seria como notificar os casos de Hipertensão.  Também podem trabalhar com indicadores clínicos do cuidado prestado, como por exemplo número de pacientes acompanhados que mantêm Índice  de Massa Corpórea < 25 ou pressão arterial menor que 120X90 mmHg, para qualificação da clínica. Esses indicadores nada mais são do que a classificação de risco, para a qual podemos ter ofertas diferenciadas. Outros indicadores de vulnerabilidade como o número de vezes que determinado paciente esteve no Pronto Atendimento por descompensação ou até qual o número médio de medicações diárias de um grupo de pacientes.

Precisamos considerar também a vigilância em saúde da população em risco de adoecer de doenças crônicas, isto é, da população saudável, trabalhando com promoção e prevenção de saúde, como fazemos com as vacinas e com a dengue.  No caso da hipertensão, um especial foco na obesidade infantil e  no tabagismo que é considerado hoje um problema pediátrico.

As ações de vigilância e monitoramento dos principais fatores de risco modificáveis e intermediários da hipertensão e das demais Doenças Cronicas Não Transmissíveis  são atribuições de toda a rede de atenção a saúde, mas pouco experimentadas se compararmos ao acumulo que temos em relação as doenças transmissíveis. Isso significa que teremos grandes debates e inúmeras capacitações pela frente, um grande tema para a Educação Permanente de gestores e profissionais de saúde, também para a Conferência Municipal de Saúde e um enorme desafio para o SUS Campinas.

Dê sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

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