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Jurema Werneck: “A tuberculose é a outra face da ausência de direitos à saúde”

“A tuberculose é a outra face da ausência de direitos à saúde”

Jurema Werneck é médica, ativista da sociedade civil organizada e Conselheira Nacional de Saúde, e estará em Campinas como convidada da IX Conferência Municipal de Saúde. Foi entrevistada pela Carta da Saúde em Brasília durante a oficina “Saúde Comunicação e Tuberculose”, realizada nos dias 3 e 4 de maio, pelo Ministério da Saúde, através do Programa Nacional de Controle da Tuberculose. A oficina contou com a participação de cerca de trinta pessoas, dentre comunicadores, trabalhadores e gestores da Saúde e ativistas da sociedade civil. Na entrevista, Jurema, que é ativista da ONG Criola, do Rio de Janeiro identifica na tuberculose “a outra face da ausência de cidadania”.  Confira na sequência como pensa a Conselheira Nacional sobre a saúde no campo dos direitos.

Carta da Saúde – Jurema, qual a sua avaliação desta oficina que discute Saúde, Comunicação e Tuberculose?

Jurema Werneck: Eu considero importante, eu acho que é um passo, não sei se o primeiro, o segundo, o terceiro ou o décimo quinto, mas é um momento importante para reflexão não apenas do que é relativo à comunicação, as tarefas e desafios, as responsabilidades da comunicação desde o ponto de vista das instâncias de comunicação, os organismos da comunicação, dos atores da comunicação, ou seja, os comunicadores. Basicamente é isso. Um momento interessante para refletir sobre o que envolve a comunicação, as questões, os desequilíbrios e as necessidades de ações coerentes no campo da comunicação para recolocar a ação de tuberculose, o debate da tuberculose no patamar que precisa. A tuberculose é a outra face da ausência de direitos à saúde. A tuberculose é outra face da ausência de cidadania.

Carta – Você tem formação como médica, atua na sociedade civil organizada e é uma Conselheira Nacional de Saúde.  O que leva, na sua opinião, a tuberculose ainda ser um problema tão grande?

Jurema: É um problema gigante porque, como doença, como caso médico, como solução médica, ela não é um problema. Os processos de diagnóstico, de tratamento, são bastante definidos, resolvidos, protocolados, tudo fechado. A tuberculose não é um problema médico, não é nem um problema da Saúde, em particular, como ação de saúde, de profissional da saúde. Ela é um problema das relações sociais, é um problema da desigualdade social, é um problema da injustiça, da falta de democracia e da falta de direito. Quem está mais exposto à tuberculose? O que faz a tuberculose ser o que é tanto tempo depois de ela ter surgido, tanto tempo depois do tratamento ter sido inventado e ter sido bem sucedido? O que leva a tuberculose a continuar sendo um problema tão forte e negligenciado? Pois quase ninguém se interessa pela assunto, e é exatamente porque se naturalizou a injustiça, a desigualdade e o tipo de tratamento que recebem determinados sujeitos sociais em no nosso país e também fora do Brasil. Estou falando da população negra, da população carceraria, da população indígena, da população soropositiva. Tem uma série de sujeitos sociais que a sociedade ainda quer expulsar das suas relações.

Carta – Higienizar …

Jurema: Exatamente. Essa visão higienista, no início do Século 20, determinou a Revolta da Vacina pelos mesmos sujeitos, de certa forma … O rastilho de pólvora para a Revolta da Vacina foram aquelas populações que se recusaram à violência do Estado. Que denunciaram aquela ação higienista não como uma ação de saúde, mas como ação de destruição das camadas sociais. A Revolta da Vacina foi isso. Suas lideranças, a participação da população negra, da população pobre do Rio de Janeiro, contra aquela ação autoritária do Estado, através da Saúde, de controlar populações marginalizadas e por outro lado de fazer isso através do discurso da Saúde. A gente está um século depois no mesmo patamar de ação insuficiente, ou de ação negligente do Estado e da sociedade. A gente só não tem uma Revolta da Vacina porque a sociedade já deu passos para que uma revolta não seja necessária. Estabeleceu direitos, criou o Sistema Único de Saúde, criou diferentes mecanismos, mas ainda faltam os sujeitos, dentro e fora da Saúde, aderirem a isso como regra, aderirem a isso como conquista, aderirem a isso como projeto social, de incluir todo mundo, dar a todo mundo aquilo que todo mundo tem direito e tem necessidade e que a sociedade produz e está à disposição.

Carta – A revista eletrônica “Carta da Saúde” é direcionada aos trabalhadores e gestores do SUS Campinas e parceiros. Que mensagem você gostaria de deixar a esses atores sociais, que  vivem na sede de uma região metropolitana, que tem suas vulnerabilidades, como outras cidades do país?

Jurema: Eu acho que uma grande dica para lidar com a tuberculose é preciso que, de certa forma, o profissional de saúde dê um passo para trás desse escudo que é a profissão de saúde. Precisa sair desse papel de prescritor, que é um papel arrogante, muito pouco democrático, e fazer um outro papel, o papel de um trabalhador que faz parte da sociedade e que faz parte deste movimento da sociedade por transformação. E reconhecer que são pessoas que também estão vulneráveis. Não sei em Campinas, mas no Rio de Janeiro, nos serviços de saúde, as unidades que atendem tuberculose, nem todas, estão preparadas fisicamente para lidar com a tuberculose. Os sistemas de ventilação não funcionam como deveriam. O trabalhador e a trabalhadora também estão expostos, mas eles têm que se ver como pessoas, como agentes capazes de participar da distribuição de renda na sociedade, da distribuição dos direitos das pessoas. Mais do que prescrever, este profissional tem que ser um parceiro na mudança da relação de saúde que precisa acontecer para que a pessoa que está vulnerável à tuberculose, ou seja, o cliente na frente dele, possa junto com este profissional, trabalhador e trabalhadora, dar o passo seguinte para a superação desse quadro. Claro que é imprescindível aderir ao tratamento, tomar os remédios, mas que a pessoa possa alcançar todos os outros direitos que lhe faltam. Não lhe falta só o direito à saúde. Falta moradia, trabalho, falta um montão de coisas, deixar a pessoa que está na frente do profissional ou da profissional, deixar ela ter o direito de  ser protagonista desta história. Essa pessoa vai conseguir contar em que contexto a tuberculose se deu na vida dela e a partir daí o profissional de saúde pode colaborar para resolver o problema. Se ficar só prescrevendo só vai agravar o quadro, porque a pessoa não vai conseguir responder ao tratamento e a gente tem aí um quadro de multi resistência criado a partir dessas insuficiências de comunicação da saúde, na relação de saúde que acabou falhando para manter a adesão ao tratamento da forma que é preciso.

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