Carta da Saúde

Notícias do SUS Campinas

Iluminar Campinas

A Luta das mulheres: conquistas históricas se realizam com Política, escrita e inscrita com P maiúsculo! Na pele, na vida, individual e coletiva, privada e pública,com alegrias, sofrimentos, retrocessos e avanços, mas sem nunca desistir, sem recuar!

Carta da Saúde – Verônica, o que tivemos a comemorar no Dia Internacional da Mulher?

Verônica G. Alencar: Nesses primeiros dez anos deste século nós mulheres brasileiras temos muito a comemorar. Pela primeira vez após trinta anos de luta conseguimos transformar as nossas reivindicações em políticas públicas. Realizamos duas Conferencias Nacionais de políticas para as mulheres, a 1ª em 2004 a segunda em 2007 de onde originaram o  I e II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres www.presidencia.gov.br/ministros/secretaria-de-politicas-para-as-mulheres. A importância desses acontecimentos pode ser verificada nas mudanças das políticas de gênero espalhadas pelos estados e municípios do país. A presença das políticas de gênero na saúde, na educação, na segurança pública, no desenvolvimento social, na segurança, no transporte, no turismo, na habitação, nas questões da diversidade sexual, nas questões raciais e étnicas, na inclusão das mulheres indígenas, quilombolas, ciganas etc.. No nosso dia a dia parece que nada mudou, mas vou citar dois exemplos bem simples assim vocês entenderão: Hoje a casa própria financiada pelo programa nacional de habitação e dos assentamentos sai no nome da mulher, as mulheres em situação de violência intrafamiliar têm prioridade na obtenção da casa própria. A licença maternidade de seis meses. Todos esses avanços vocês podem ver na página da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Outro exemplo, temos aí um órgão que gerencia a implantação e a implementação do Plano Nacional junto com um órgão colegiado de municípios e sociedade civil, isso também com recursos próprios.

A aprovação da lei Maria da Penha também é uma importante conquista a ser comemorada, para que vocês tenham uma ideia dessa importância vou explicar: Antes dessa lei, quando as mulheres sofriam quaisquer violências por seus parceiros, quem estava sofrendo era à instituição do casamento e não a mulher, e o crime era contra a sociedade e não contra a mulher. Assim não havia como punir o autor. Com a lei, a mulher é que sofre a agressão e o crime se configura contra a pessoa, entendeu? Aí a responsabilização do autor fica viável. Demoramos trinta anos para que isso acontecesse, Devemos ou não comemorar?

Em Campinas também temos conquistas a comemorar. Foi criada a Coordenadoria da Mulher em 2001, temos hoje políticas de gênero sendo implementadas em várias Secretarias como, Saúde, Assistência, Educação, Transporte, segurança. Temos um Centro de Referência e Apoio à Mulher, um abrigo para as mulheres em situação de inviabilidade de moradia quando sofrem violência do seu parceiro.  Campinas é o município que primeiro assinou o “Pacto pelo Fim da Violência Contra a Mulher” e anuncia por decreto do SR. Prefeito em todas as comemorações o cumprimento da lei Maria da Penha e o único que tem uma lei que regulamenta a atenção ao aborto inseguro nos serviços de saúde. Também temos o fato de sermos o único município que zerou a realização de abortamentos permitidos por lei.

Mas nada se compara a comemoração mais importante que é ter pela primeira vez uma mulher na Presidência da República concorda?

Por isso é importante colocar algumas reflexões:

Nós mulheres temos direito à saúde, a paz e ao poder.

Para nós mulheres só há uma saída. OUSAR, SONHAR E LUTAR

Carta – Você poderia fazer um breve balanço ou avaliação do Projeto Iluminar e nos contar, para quem ainda não sabe, como o Projeto funciona?

Verônica: O Iluminar Campinas não é um projeto é hoje uma Política Pública de cuidado às vítimas de violência sexual, faz parte do “Núcleo de Prevenção as Violências e Promoção de Cultura de Paz de Campinas” e está dentro do Plano Nacional de Prevenção aos Acidentes e Violências do Ministério da Saúde.

O Iluminar Campinas oferece às vítimas de violência sexual, de ambos os sexos e de todas as idades, assistência à saúde física e psicossocial, prioritariamente às questões de polícia (antes da implantação do programa apenas 20% das vítimas chegavam aos serviços de saúde em tempo hábil para a prevenção, pois a primeira ação das vítimas e das famílias era se encaminhar a uma delegacia de polícia.) prevenindo a gravidez por estupro, as DST/Aids/Hepatites e garantindo o direito ao abortamento legal, evitando a REVITIMIZAÇÃO através do trabalho em rede e quebrando a corrente de violência, cuidando das crianças, adolescente e dos homens. Citando como resultados:

– A redução de 100% dos abortamentos permitidos por lei nos últimos três anos nas pacientes que chegaram aos nossos serviços. Os resultados alcançados são importantíssimos pois refletem a capacidade de prevenir, com custo quase zero, o trauma nas vítimas de uma das mais graves violências sofrida pelo ser humano.

– 100% dos casos que realizaram todo o tratamento não tiveram sorologias positivas para HIV/Hepatites

– A redução do tempo entre a ocorrência e o atendimento possibilitou a eficácia da norma técnica. 90% das vítimas chegam antes de 12hs.

– A participação na implantação do sistema de notificação de violência SISNOV, o acompanhamento dos casos e a publicação dos dados através de boletins epidemiológicos anuais mostraram a importância da informação para a construção de políticas publicas para o enfrentamento da violência.

– A criação do serviço de cuidado aos adolescentes autores de violência em ambiente não policial junto as suas famílias .

– A consciência dos serviços da rede de que as vítimas de violência sexual são da nossa responsabilidade e devem ser tratadas com competência e humanização.

– O envolvimento da comunidade e da mídia na divulgação e informação elevaram o nº de atendimento nos anos após a implantação do programa, possibilitando às vítimas o cuidado com sua saúde.

– A mudança no padrão dos autores, aparecendo um índice alto de mulheres denunciando seus próprios companheiros, certas de que serão acolhidas e sua saúde e direitos garantidos.

– A parceria com o IML, A DDM, E A delegacia seccional a responsabilização dos autores se tornou mais efetiva.

O Iluminar campinas é uma rede de cuidados que envolve todos os serviços da Saúde: UBS, Hospitais Mário Gatti e Ouro-Verde, PS Anchieta, São José, O CAISM e HC da UNICAMP.SAMU, Centros de Referências, entre outros. Educação: Escolas, EMEIS. Segurança Pública: Guarda Municipal,IML Delegacia da Mulher. Assistência Social: CEAMO, Abrigo SaraM, Centro de referencia GLBT,CREAS e CRAS. Os Conselhos tutelares, Vara da Infância, Disque Denuncia, todos os Conselhos de Direitos. ONGs: TABA, CRAMI .

Para que as vítimas sejam atendidas é importante atentar para o fluxo abaixo para enviar para o serviço de saúde indicado. (CLIQUE AQUI E SAIBA MAIS…)

 

Carta – Como que os trabalhadores do SUS Campinas podem participar deste Projeto?

Verônica: Os trabalhadores do SUS são os maiores protagonistas desta política pública. A principal mudança de paradigma no atendimento as vítimas foi definir a violência sexual como um problema de saúde pública. Os profissionais dos nossos serviços já foram capacitados para o acolhimento e cuidados às vítimas e suas famílias e desenvolvem um trabalho importante na intersetorialidade, de complementação do cuidado com a proteção das vítimas e a responsabilização dos autores. Os profissionais que realizam as ações de cuidado às vítimas devem notificar os casos no SISNOV, não esqueçam que a violência sexual assim como a violência contra mulher, crianças e adolescente e idosos é de notificação compulsória. Se algum profissional ou mesmo serviço tiverem alguma dúvida podem acessar nosso site www.campinas.sp.gov.br/saude clicar no link SISNOV e ver no link Iluminar Campinas ou ligar na Coordenadoria da Mulher – 2116 -0781.

Carta – O que nós não pudemos comemorar neste mês de Março, neste mês do Dia Internacional da Mulher?

Verônica: Neste Dia Internacional da Mulher de 2011, por incrível que pareça, aos 10 anos deste século, a gente jamais poderá comemorar o aumento abusivo de homicídios de mulheres. Se você pensar na violência específica contra a mulher, nos homicídios, em especial os homicídios com requintes de crueldade, estes aumentaram cinquenta porcento. Então agora os homens não se contentam em matar as suas mulheres, ou violentá-las. Eles esquartejam, jogam para os cachorros, tocam fogo. É uma coisa muito cruel. A Secretaria de Segurança do Estado de São Paulo acaba de divulgar os números. Em 2009 morreram cinquenta mulheres assassinadas pelos seus companheiros. Em 2010 este número chegou a 105. Então é um aumento de cinquenta por cento! Em 2009 foram 55 e em 2010 foram mais de cem! Dobrou! E com requintes de crueldade. Aconteceram logo após termos conseguido aprovar a Lei Maria da Penha. Se a gente pensar nos trinta e cinco, quarenta anos de luta do feminismo, o feminismo nunca assassinou uma pessoa sequer. O machismo mata as mulheres no dia a dia! Jamais poderemos comemorar uma situação tão cruel como a que nós mulheres estamos vivendo.

Dê sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

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4 thoughts on “Iluminar Campinas

  1. Pingback: Editorial « Carta da Saúde

  2. TANIA FERRONI on said:

    PARABÉNS VERONICA. QUE VOCÊ POSSA CONTINUAR ILUMINANDO ESSE TRABALHO TÃO ÁRDUO, COM SEU CARINHO, CONHECIMENTO E DEDICAÇÃO.

  3. Veronica
    Meus sinceros parabens pelo seu belissimo trabalho.Como a educação pode ser ampla!
    Todo o meu carinho
    margareth Brandini Park

  4. Naoko Silveira on said:

    Como me orgulho de fazer parte desta história e me comovo muito quando a Verônica fala do direito a delicadeza, no trato a pessoas que sofreram violência sexual, uma realidade bruta e dura! Tamos junto nessa Verônica!
    Naoko

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