Carta da Saúde

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Comunidade Cigana

Comunidade Cigana: cultura nômade requer a aplicação do conceito de equidade na organização da prestação de cuidados às mulheres ciganas.

A Carta da Saúde acompanhou o primeiro encontro do SUS Campinas com a comunidade cigana organizado pelo Centro de Saúde Eulina. Foi realizado na residência de uma família cigana, com a participação de cerca de 40 mulheres, e marcou as comemorações do Dia Internacional da Mulher, 8 de março. Estiveram presentes o Centro de Saúde Eulina, o Conselho Municipal de Saúde, Núcleo de Comunicação, e a Àrea da Saúde do Idoso. Os evento estava na programação do mês divulgada pela Área da Saúde da Mulher da Secretaria da Saúde de Campinas.

Na ocasião a Carta entrevistou Rosana, coordenadora do Eulina, Sandra Caldeira da Silva, mulher cigana, e também Vanda, presidente da Associação de Cultura Cigana de Campinas, durante a V Plenária Rumo a IX Conferência Municipal de Saúde. Confira as entrevistas

Carta da Saúde – O que você achou deste primeiro encontro das Mulheres da Comunidade Cigana do Jardim Eulina com o Centro de Saúde Eulina,  Conselho Municipal de Saúde, Núcleo de Comunicação da Secretaria Municipal de Saúde e Área da Saúde do Idoso?

Sandra Caldeira da Silva: Olha, eu achei muito bom. Principalmente agora que nós estamos mais integrados àqueles que, como nós, são brasileiros. Nós também somos brasileiras, mas há uma diferenciação. Agora é que vocês estão nos visualizando mais. Nos vendo mais como integrantes da sociedade civil e eu fui muito bem recebida, principalmente na Prefeitura. Eu e minhas amigas, em todas as reuniões que nós fomos. Não me senti discriminada, como muita gente fala. No postinho, às vezes, as pessoas não entendem muito o nosso jeito de ser. Porque, como a gente é nômade, às vezes as ciganas vão marcar uma consulta e elas querem ser atendidas ali, na hora. Mas não por querer ser mais do que os outros. É porque naquele momento eles estão ali, necessitando de um médico. Então é por isso que eu, e a Vanda, diretora da Associação da Comunidade Cigana, estamos pedindo, assim, um atendimento sensível às ciganas, para sentir as nossas necessidades, porque há muitas ciganas que chegam aqui e amanhã têm que viajar por necessidade, até. Nós mesmos não podemos esperar por uma consulta dois ou três meses.

Carta – Mas a partir deste encontro, como você espera trabalhar essa aproximação com o SUS entre as pessoas da Comunidade Cigana?

Sandra: Eu pretendo, com a Associação, fazer outros encontros entre a Comunidade Cigana, trazer mais palestras como a que foi feita aqui, hoje, pela doutora Jane, para ensinar a mulher cigana algumas coisas e a gente também contar para ela aquilo que a gente sabe. Agora nós vamos para a Educação e para a Cultura, também. A Cepir (Coordenadoria Especial de Promoção à Igualdade Racial), a Prefeitura tem sido receptiva. O vereador Canário também está nos ajudando. Estamos muito contentes pela forma como vocês estão nos recebendo.

Você está lendo a entrevista que a “Carta da Saúde” realizou durante uma das ações que marcaram a Programação Oficial de Celebração, em Campinas, ao Mês da Mulher. Dentre as comemorações do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março. A entrevista foi na casa de uma das Mulheres da comunidade cigana onde ocorreu o encontro com o Centro de Saúde Eulina. No total cerca de 40 mulheres daquela comunidade participaram do encontro.

Sandra, a nossa entrevistada, é suplente do Conselho Municipal de Campinas. Alguns dias antes, na última Plenária Rumo à Nona Conferência Municipal de Saúde de Campinas, a “Carta da Saúde” entrevistou também Vanda, durante a V plenária rumo a IX Conferência Municipal de Saúde de quem a Sandra fala na entrevista. A Vanda é presidente da Associação da Cultura Cigana de Campinas. Confira o que ela nos contou:

Carta – Vanda, recentemente o governo da França provocou uma grande polêmica ao restringir o acesso da Comunidade Cigana naquele país. Aqui, no Brasil, mais recentemente uma representante da Comunidade Cigana tornou-se suplente de um Conselheiro Municipal de Saúde, sendo que o Conselho é deliberativo e seus suplentes têm status de Conselheiro, já que podem assumir a vaga no órgão. O que você acha do que acontece na Europa e do que acontece aqui?

Vanda: Nós agradecemos quando somos respeitadas. Para nós tem uma grande importância fazer parte desses órgãos. Nós achamos que isso é uma grande inclusão. Entre a nossa comunidade Cigana, é a nossa primeira participação em cerca de sessenta anos que vivemos nesta cidade. É muito importante a aceitação das pessoas da Comunidade Cigana dentro das repartições públicas. Há dois anos nós criamos a Associação da Cultura Cigana de Campinas e agora nós estamos repercutindo este trabalho em todo o Estado de São Paulo. Houve uma repercussão muito boa e muita expectativa de comunidades de outras cidades também. Há um pedido para que sejamos representantes do Estado de São Paulo, também. Então nós estamos muito felizes por poder participar de uma coisa importante. Nós temos necessidades específicas, nossas ciganas também têm necessidades particulares delas, e se tiverem um atendimento com um olhar mais especial elas vão cuidar melhor da saúde delas, sejam meninas, sejam adolescentes, jovens, adultas, idosas, elas muito pouco usam os Centros de Saúde.

Carta – E não usam por quê?

Vanda: Olha, claro que os Serviços estão à disposição da mulher, de cada cidadão, seja cigano ou não. Mas a mulher cigana ela é do jeito dela, mesmo. Ela é nômade! Embora ela tenha um endereço “X”, ela continua nômade, ela acompanha os filhos, os netos, ou ela mesma viaja muito e então, quando se vai falar em agenda, ela não consegue cumprir a agenda. A cigana, ela não tem agenda, ela é livre. Então, ela não se adapta. Ela não tem esse cotidiano característico das outras comunidades ocidentais, de agendar para o dia “X”. No dia “X” pode ser que ela não esteja aqui. Se ela não encontra uma vaga, ou um atendimento, ela vai embora, às vezes, e não volta mais, e carrega consigo os problemas e às vezes traz mais alguns. E aí, acaba, assim, migrando também a doença.

Carta – O que você espera?

Vanda: Que o SUS olhe para a mulher cigana de um jeito diferente. Que ela seja acolhida do jeito que ela é. Que se respeite a vida e o cotidiano da mulher cigana. Nós queremos uma situação em que haja um entendimento e um atendimento a ela, à mulher cigana. Não queremos exclusividade, mas talvez algumas adaptações. Um olhar diferenciado, sensível. Quando a cigana aparecer lá no Centro de Saúde, ela precisa ser acolhida. É isso que nós pretendemos resolver. Ainda mais quando é aquela cigana carente. Muitas têm planos de saúde, mas nós estamos olhando para aquela cigana carente mesmo, que precisa de um atendimento.

Carta – Você está participando hoje de um evento que discute o Controle Social, ou seja, o povo no controle da máquina pública. Como você entende fazer parte de um país, como o Brasil, que tem este nível de participação, mas ao mesmo tempo convive com falsas impressões que dão origem a discriminações e podem deixar uma pessoa ou todo um segmento da população, à margem da sociedade?

Vanda: Nós estamos trazendo a Comunidade Cigana para que os atores sociais, os políticos, nos enxerguem, nos vejam. Porque a nossa Comunidade, infelizmente, não tem um atendimento. E não estou falando do SUS, mas de todas as áreas: Cultura, Educação. É preciso conhecer essa comunidade para entender e ver que é uma comunidade como outras, não que as pessoas e os costumes sejam iguais, mas que muitas vezes existe uma imagem errada a nosso respeito na sociedade. Nós somos uma minoria e não há quem nos olhe com mais sensibilidade. Nós estimamos que a Grande Campinas tenha pelo menos umas quinhentas famílias ciganas, mas que têm endereço aqui e continuam sendo ciganos, nômades. Eu nasci e fui criada aqui, mas sou nômade também. Campinas tem uma das maiores Comunidades Ciganas do Brasil. A igreja evangélica cigana de Campinas (Assembléia de Deus da Comunidade Cigana, no Jardim Eulina) elabora eventos com a Comunidade Cigana Internacional, da Alemanha, e inclusive da França. Nós queremos chamar atenção dos políticos para que nos olhem. Nós temos nossos filhos, nossos idosos, nossas crianças e os nossos deficientes. Como fomos convidados a participar, estamos participando.

Confira a entrevista com a coordenadora do CS Eulina:

Carta – Rosana, como tem sido o acolhimento à Comunidade Cigana?

Rosana: A Comunidade Cigana é nossa usuária no Centro de Saúde. O Eulina tem em sua história um início com Acampamentos Ciganos. Uma área do bairro, que acredito ser exatamente onde a gente está hoje participando deste encontro. A Comunidade Cigana faz parte da história do bairro. Eles usam os nossos serviços, como qualquer outro usuário, a porta é aberta, não se faz nenhum tipo de programa especial para esta comunidade. Por causa de suas tradições, às vezes isso traz empecilhos ao uso dos serviços porque eles são nômades. Percebemos as dificuldades de  comparecimento às consultas agendadas e a adesão aos tratamentos. Estas questões sempre foram tratadas individualmente, com cada pessoa, que a gente acabava tendo de ir atrás. E, durante muitas vezes, a gente não localizava mais a pessoa, que  voltava muito tempo depois para ver aquele exame e aquele exame já não servia mais. Neste momento, o que está acontecendo é que um grupo de mulheres nos procurou para organizar esta atividade, o que foi um ganho muito grande para o Centro de Saúde e que eu espero que seja mútuo e que a gente venha a construir um relacionamento mais estreito. Eles têm, realmente, dificuldade de acesso, eles têm queixas em relação ao acesso, e nós temos problemas no alcance das ações à esta comunidade. Os hábitos fazem com que fique difícil usar as regras, não digo especificamente deste Centro de Saúde, mas dos Serviços Públicos. E é mesmo muito difícil que um Centro de Saúde possa atuar sem agenda, sem horário agendado. É muito difícil. É difícil que um exame ou uma especialidade não tenham horários nem agenda. Eles acabam esbarrando nas nossas regras de farmácia, de distribuição de medicação, nas regras de agenda, nas regras de encaminhamento, que são comuns à comunidade toda, mas não à comunidade cigana, são regras da comunidade toda.

Carta – Como é possível melhorar o vínculo do SUS com a Comunidade Cigana?

Rosana: Vamos começar construindo passo a passo. Numa conversa que não pode ser interrompida. Somos um Centro de Saúde e estamos disponíveis para o diálogo. A gente conhece as pessoas individualmente, sei os nomes de várias delas que estão aqui, hoje, mas como uma Comunidade organizada, o que é muito importante para eles, eu não conheço. Havendo essa identificação, o acolhimento individual também melhora. Para a gente do Serviço este dia é bem um início de um trabalho para poder atender melhor.  Isso será muito importante para a Equipe.

CLIQUE AQUI PARA VER O ÁLBUM DE FOTOS DO ENCONTRO COM A COMUNIDADE CIGANA

Dê sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

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2 thoughts on “Comunidade Cigana

  1. Pingback: Editorial « Carta da Saúde

  2. ana mesquita on said:

    conhecir um pouco da cultura cigana neste final de semana aqui em são paulo amei e como sempre acho a cultura cigana muito bonita,vocês tem um brilho maravilhoso e conhecir uma cigana,conversei um pouco com ela e adorei obrigada a todos vocês parabéns pela seus constumes e admiravel

    um abraço a todos :
    ana mesquita

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