Carta da Saúde

Notícias do SUS Campinas

Corpo em movimento

“A doença é o rompimento do silêncio de um corpo”

O Programa Corpo em Movimento existe há cerca de 10 anos na Rede SUS Campinas. Foi introduzido para empoderar o usuário do Sistema Único de Saúde como sujeito que produz sua própria saúde, no seu caminhar na vida.

Para entender melhor este trabalho, a “Carta da Saúde” entrevistou Maria da Glória Coelho, a Góia, psicóloga que atua no Centro de Saúde Barão Geraldo que nos contou o que a motivou a iniciar este trabalho. Confira:

Carta da Saúde – Como que inicia sua relação com ações relacionados à melhoria da Qualidade de Vida?

Maria da Glória Coelho, “Góia”: Começa a partir de uma insatisfação, mesmo, como profissional de Saúde Mental. Eu percebia esta insatisfação também nos usuários e nos meus colegas. O instrumental que tínhamos para lidar com a questão da Saúde Mental naquela época era muito restrito. Era uma escuta clínica como psicóloga e a consulta com os psiquiatras que entravam com a medicação. Medicações de última geração etc. Mas como psicóloga de Saúde Pública, para mim, isso era muito pouco. Eu só podia oferecer a escuta clínica num contexto de uma demanda que estava sempre crescendo. Ah, claro, também havia a medicação disponível. Mas para mim ainda faltava alguma coisa. Isso que nós fazíamos ajudava um pouco as pessoas, pois diminuíam os sintomas, mas a qualidade de vida, a autonomia em relação à saúde, a segurança e a busca pelo lazer e por outras coisas que também ajudam a saúde… eu não via mudança alguma nesse sentido. Foi então que, nesse momento de insatisfação profissional na minha vida, eu encontro o Sistema Rio Abierto.

Este Sistema nascido na Argentina, através da psicóloga Maria Palcos que, embora seja um sistema, uma técnica de trabalho psíquico e corporal, ela não se esgota na clínica. O trabalho do Sistema Rio Abierto busca o desenvolvimento harmônico do ser humano. Não se fala em cura, em doença, mas sim da prevenção, da promoção de saúde, de um desenvolvimento harmônico. Então considerei que, eu poderia caminhar através deste rio, eu poderia levar esse rio para a Saúde Pública, para possibilitar uma melhor satisfação com meu trabalho. Basicamente, neste momento, eu começo a trabalhar com grupos. Utilizando as rodas, a música, a cultura popular, a cultura do mundo para buscar uma vitalidade maior para o corpo, alinhando este corpo com a espiritualidade, quero dizer: Um corpo melhor para também uma melhor apropriação das potencias do indivíduo. Eu acho que vai além da busca por saúde. Este trabalho começou meio solitário, na década de noventa, no Centro de Saúde do Jardim Aurélia, depois, a minha vinda aqui para o Centro de Saúde de Barão Geraldo, coincide também com o momento em que a Prefeitura institucionaliza as iniciativas relacionadas às práticas de Saúde Integrativa. Estas vinham sendo organizadas em alguns lugares mais pontuais, mas já acontecendo na Rede. A Prefeitura assume então o Projeto Corpo em Movimento nas Práticas Integrativas, dando ainda mais força a esta proposta, que até então era mais uma coisa de garra, de quem optou por ela em alguns lugares. Eu desenvolvi o projeto aqui em Barão e também no Caps Estação, que ficava perto da antiga Rodoviária de Campinas. O projeto era para os usuários do Caps, os usuários mais graves, e a população de usuários do Centro de Saúde de Barão Geraldo.

Carta – Como é desenvolvido o Projeto Corpo em Movimento no Centro de Saúde Barão?

Goia: O Projeto Corpo em Movimento, em Barão, tem três vertentes. A gente tem o Liang Gong, Danças Circulares e o Sistema Rio Abierto. O Liang Gong é oferecido quase todos os dias nas praças do Distrito de Barão Geraldo. Temos vários grupos de Danças Circulares. E o Sistema Rio Abierto, que estamos focando aqui, não acontece  propriamente dentro do Centro de Saúde de Barão. Nem temos espaço, uma sala para comportar um grande número de pessoas. Nós saímos de dentro do Centro de Saúde e vamos nos aproximando das comunidades. E junto discute-se o espaço público, sobre o estar próximo da comunidade. O Liang Gong, realizamos nas praças públicas. No Real Parque nós temos dois grupos, cinco grupos aqui no Centro do Distrito de Barão, e outros grupos, por exemplo, no Guará. A população nem precisa se locomover até o Centro de Saúde para essas práticas. Pelo Sistema Rio Abierto tem um grupo no Casarão aqui de Barão Geraldo. É um espaço da Secretaria Municipal de Cultura, temos uma parceria intersetorial, que é quando a gente senta para conversar com as outras Secretarias, como as de Educação, de Cultura, na tentativa de ir tentando derrubar esse muro que muitas vezes a gente constrói, não é?  Todos querem a mesma coisa, então neste Projeto de Intersetorialidade ocupamos a Casa de Cultura de Barão, que é um grande espaço com poucos projetos. Nos reunimos nas manhãs de quarta-feira, cerca de vinte a vinte e cinco pessoas para compartilhar este trabalho chamado Rio Abierto. Lá, a gente dança em roda. Aliás, as danças em roda são uma característica fundamental desse trabalho, em que todas as pessoas se relacionam não-hierarquicamente, em outra estética, que envolve outra visão de mundo. Ali  há trocas de saberes, de problemas, de tristezas, forma uma caixa de ressonância. Nela as pessoas têm a sensação de pertencer a alguma coisa, de fazer parte. Esta é a idéia. Ali, no grupo, no momento, surgem também outras coisas. Relacionam-se, e referem-se à qualidade de vida, à melhoria da qualidade de vida. Outro grupo acontece às segundas – feiras na Cooperativa Brasil, que é privada mas que nos cede o espaço. Ali trabalhamos, com  um grupo grande, faço um trabalho com a médica clínica daqui do Centro de Saúde que tem um grupo de 30 a 40 mulheres, semanalmente. Às vezes tem um número até maior que este. E ainda temos um trabalho de Dança Circular no Núcleo de Ação Social do Real Parque. Este trabalho tem alguma semelhança com o Rio Abierto pelo fato de ser circular, só que são passos dançados.

Carta – Como se apresentam hoje as demandas para estas ações?

Goia: Até a um tempo atrás a demanda era interna mesmo. Era um clínico que percebia que as pessoas, durante as consultas vinham em busca de outras coisas. Muitas estavam em busca de um Centro de Convivência. Eram mulheres que estavam naquela fase do “ninho vazio”, que é quando os filhos estão saindo de casa. A função principal desta mulher na casa é com o cuidado dos filhos, ela começa se sentir muito sozinha, muito solitária…  Esta demanda enchia a nossa agenda, a nossa fila de espera, pois o instrumental que nós tínhamos até então era só de ouvir e a Psicologia não é isso só de ouvir e ir embora, dar um remedinho. É ouvir, ouvir, ouvir… E a fila sempre crescendo. Hoje o que a gente percebe? Essas pessoas que a clínica atende com dores generalizadas, com dor de viver, com dor de perder, medo de morrer, medo de bandido, de tecnologia, de todos esses fantasmas da modernidade, que chegam para ela e ela não tem interlocução, aquilo vai virando doença. Então os clínicos, os ginecologistas, os auxiliares de enfermagem, todo o pessoal da recepção começou se sensibilizar com essas demandas e encaminhavam porque percebiam que este grupo, de alguma forma, contemplava um pouco esta situação de solidão da vida moderna, resolvia muito das dores, das depressões. Hoje em dia já é muita gente que vem porque a vizinha contou que participa do grupo. Normalmente todas têm prontuário aqui no Centro de Saúde, mas estão acessando os grupos em busca de promoção à saúde. Para mim, o grande ganho é este. Elas estão vindo aqui para buscar saúde. Isso é fundamental à Saúde Pública. A gente promover a saúde e não ficar só correndo atrás do prejuízo. Porque, quantas vezes não é a doença o próprio rompimento do silêncio de um corpo? E muitas vezes ele dá sinais de que precisa de alguma coisa urgente. A gente não ouve e acaba adoecendo. Então, é por isso eu acho que o nosso trabalho tem que chegar antes do remédio. Para as pessoas perceberem sua vitalidade, seu poder, e na primeira dor não ir logo correndo atrás do diclofenaco. É a pessoa saber que ela pode mexer um pouco ali, aquele lugar, que vai sentir maior autonomia, mais segurança. Se para qualquer coisa eu usar um antibiótico, quando eu precisar dele, ele pode não ter mais o efeito esperado. Ou o abuso do analgésico que é geral. Daí depois vem dor de estômago, acaba tendo de ir para outro médico. O trabalho é para as pessoas se empoderarem de sua saúde.

Carta – Você percebe esta transformação na pessoa?

Goia: Sem dúvida. Eu acho que este tipo de trabalho permite isso. Inclusive uma volta ao que os pais, os antigos, o que os ancestrais diziam.  Só que agora a gente pode fazer isso sabendo que existem os médicos, os exames para detecção dos problemas, mas eu posso aprender também com o resgate de saberes. São espaços de multiuso, pois eu posso também usar esse espaço para abordar, por exemplo, uma campanha de vacinação que vai ser realizada. Temos aqui um grupo de dança circular onde fazemos uma roda, uma pessoa coloca no meio uma flor, uma planta, e faz um relato sobre o que ela sabe sobre aquela erva. Com algum tempo as pessoas já estão trocando mudas de plantas e estão se apropriando não só destes, mas de outros saberes do calendário da saúde, neste ambiente de trocas. Através do reconhecimento da sabedoria dos usuários, eles adentram o nosso trabalho de promoção à saúde. Eu considero um forte instrumento, um forte aliado do protagonismo.

Dê sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

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2 thoughts on “Corpo em movimento

  1. florianita braga campos on said:

    Ô, Maria!!!!!!!!!!!!!!
    finalmente você escreveu, com ajuda da BeteZuza – incansável divulgadora de leites tirado das pedras – a introdução de sua tese.
    Viva pra vocês duas!!!
    saudade,
    anita

  2. Eita Goinha arretada !!!

    Lurico

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