Carta da Saúde

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Casa das Oficinas

“Usuários adoecem menos e tomam menos remédios”

A Casa das Oficinas tem espaços de vendas de sua produção no Pronto Atendimento do Complexo Hospitalar Ouro Verde (Chov), em lojas no Distrito de Barão Geraldo, ou nos bairros Castelo, e Cambuí, além do shopping Unimart e de feiras e eventos. É uma unidade de saúde pública que faz parte da Rede SUS Campinas. Funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h e está localizada no território do Distrito de Saúde Noroeste, apesar de sua atuação não ficar restrita à área.

Este Serviço de Saúde é voltado à geração de emprego e renda. E quem vai explicar melhor o funcionamento desta unidade pública é sua coordenadora, Andréa Barreiro Hahon de Sousa. Confira a entrevista:

Carta da Saúde – Andréa, qual é o papel da Casa das Oficinas?

Andréa Barreiro Hahon de Souza: Nosso papel é oferecer oficinas de trabalho e renda, onde as pessoas possam participar, trabalhar e receber em dinheiro mas que tenham como objetivo a reabilitação desses indivíduos para a vida. A Casa foi criada em 2005, e agregou as produções dos usuários do Centro de Saúde Integração e do Caps Integração, aqui da região. Inicialmente estas ações estavam vinculadas aos grupos terapêuticos, porém com uma produção mais elaborada, com melhores resultados, comercializavel. Os usuários começaram a participar de algumas barraquinhas, feiras e festas e vendiam os produtos. Para que os projetos  pudessem garantir renda de fato, precisariam de uma uma equipe, um espaço próprio, onde os usuários pudessem frequentar com maior constância e não só uma vez por semana. Você não consegue manter uma produção comercializavel frequentando o serviço uma vez por semana. Uma produção, por exemplo, de bolo, na oficina de culinária. Você não consegue obter renda da venda de bolo  vindo uma vez por semana. Você vai vender o bolo hoje, mas se houver um pedido para  amanhã, vai dizer que só fará o bolo na semana que vem? Ou então recebe uma encomenda para uma  festa, mas como não é dia do grupo, então não vai fazer o bolo? Não dá para pensar em geração de renda sem pensar minimamente em ter uma certa rotina de produção. Compreendendo o contexto e a necessidade, o Distrito de Saúde Noroeste decidiu  montar a Casa das Oficinas. Acreditamos que investir neste serviço é algo que vale a pena pois oferece um sentido melhor às vidas destas pessoas. A maioria estava fora do mercado de trabalho,  dentro de um Caps, em casa, ou abandonados, sem ter o que fazer. Em alguns casos frequentavam pontualmente o Caps, mas não tinham uma rotina de vir a uma oficina de trabalho. São apenas dois serviços de geração de renda na cidade, o NOT Cândido Ferreira e a Casa das Oficinas, e a gente vê que vale a pena investir para mante-los.  Uma das coisas bacanas que a gente tem observado é que diminui absurdamente o tempo de permanência dos usuários de saúde mental, que frequentam a Casa das Oficinas, nas unidades. Eles permanecem aqui por muito tempo e vão lá pontualmente, por exemplo, para buscar o remédio. E também, todos os que estão aqui, nunca mais entraram em crise. A gente tem dezoito usuários de Caps sem crise desde 2006 e 2007. Comprovadamente, faz diferença esse investimento, temos que oferecer serviços que gerem renda, que ofereça a estas pessoas condições de ganhar, não só o dinheiro para que possam comprar suas próprias coisas, mas que gerem valores. Eu acredito, a gente consegue fazer isto, em um espaço de trabalho ainda que protegido, pois não é o mercado, mas é um espaço de trabalho que permite, além da renda, a geração de valores e cidadania.  Para as nossas vidas, gerar valores é importante. Poder conviver e perceber que as pessoas gostam do que a gente faz. Para aqueles que foram hospitalizados por muito tempo… tem uma pessoa aqui que levou eletrochoque, que é da época do eletrochoque. Hoje esta mesma pessoa vem me contar que viajou no Natal porque guardou dinheiro o ano inteiro e conseguiu até comprar presentes para a família e voltou contente, estabilizado.

Carta – Qual é o público deste serviço e como que a Rede SUS Campinas pode participar?

Andréa: O público não é exclusivamente da Saúde Mental. A Casa das Oficinas não é exclusiva da Saúde Mental. A Casa atende pessoas da Saúde Mental e pessoas em vulnerabilidade social. Pessoas que, por algum motivo, estão afastadas do trabalho, e que têm prejuízo em suas vidas, em seu cotidiano, que necessitam construir ou reconstruir uma rotina de vida, podem ser encaminhadas à Casa das Oficinas. Elas podem ser encaminhadas pelas Unidades Básicas de Saúde, pelos Serviços de Referência e Hospitais. Também temos recebido encaminhamentos de clínicas particulares de psiquiatria, a PUC encaminha pessoas, os Pronto Socorros encaminham, e pessoas que aqui chegam espontaneamente. Se a pessoa passou aqui na frente, viu a placa, se interessou, viu o movimento aqui dentro e quer participar, ela não precisa necessariamente ter um prontuário na rede para ser atendida. O caso desta pessoa vai ser avaliado, como todos são, porque o desemprego não é o único critério para o acolhimento.  A gente avalia, dentro de uma escala de prioridades, a história da pessoa. Todas as sextas-feiras, pela manhã, as pessoas agendam e comparecem, tendo encaminhamento ou não. E o que eu tenho percebido ao longo dos últimos anos, desde que a Casa iniciou em 2005 até hoje, é que aumentou bastante a quantidade de encaminhamentos. Médicos, clínicos, ginecologistas e até de ortopedistas eu já recebi encaminhamentos porque conversou com o paciente, veio até aqui para conhecer o trabalho, ou já conhece a Casa das Oficinas. Faz bastante diferença quando os colegas da rede vêm aqui conhecer a Casa e ganham condições de entender a pessoa que precisa ser encaminhada para cá. Há casos que a gente avalia e que poderiam frequentar um Centro de Convivência. Também há casos que os Centros de Convivência nos encaminha por considerar este é o serviço mais adequado para aquela pessoa.  São encaminhados à Casa das Oficinas pessoas das regiões Noroeste, Sudoeste e Sul.

Carta da Saúde – Os trabalhadores e parceiros do SUS Campinas podem comprar os produtos?

Andréa: É uma forma de participar. A aquisição dos produtos não é um consumismo, mas uma proposta maior. Há produtos para pronta entrega. No final do ano recebemos muitas pessoas da Rede interessadas na produção. Nós divulgamos e é a divulgação que faz o Serviço ampliar e melhorar. Temos três Oficinas de Trabalho, duas de artesanato e uma de culinária. Estas duas de artesanato abrem-se em leques de três tipos diferentes de artesanatos: bijuteria; linhas e tecidos; mosaico, papel e madeira e tem a de culinária, que faz salgados doces e cafés. Temos convenio com uma empresa de software, a mais de um ano, que contratou a entrega dessa produção dos coffee-breaks para todos os eventos de treinamento que eles realizam. Todas as terças e quintas-feiras, até fevereiro, vamos entregar esse café. Dois usuários do SUS que estão aqui conosco é que levam. Não são os funcionários. Eles vão entregar seus produtos.  A compra para produzir o café também é feita por eles e a gente só ajuda a fazer a lista. Nós estamos aqui justamente para ajudar a organizar esse cotidiano do trabalho. Os serviços e parceiros do SUS que tiverem acesso a esta entrevista também podem contratar essa produção.

Carta – Estes são resultados práticos?

Andréa: Os resultados, objetivamente falando, são mudanças nas pessoas que aqui estão. Vejo que elas ganham autonomia, melhoram o auto cuidado, a auto estima, pois eles se vêm potentes. No dia da entrega do produto eles querem ir para casa antes, para se trocarem, usarem uma roupa mais bonita, se apresentarem melhor. Isso, para nós, tem um significado muito importante. Essas pessoas estão adoecendo menos e tomando menos remédios. Algumas pessoas que pipocavam nas Unidades Básicas, estavam lá todos os dias e conseguiram aqui dar um outro significado às suas vidas. Esta mesma pessoa agora vai à Unidade Básica com uma finalidade específica. Até para as UBSs flui melhor. Os usuários de Caps, desde que iniciaram aqui não entraram mais em crise. Alguns casos já foram encaminhados para as unidades básicas porque os Caps já consideram que estão suficientemente estabilizados.

Dê sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

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4 thoughts on “Casa das Oficinas

  1. Pingback: Fotos e Entrevista – Fórum GeraRenda – Campinas « Rede de Saúde Mental e Economia Solidária

  2. Pingback: Fotos do Forum de Geração de Renda « SUS Campinas . Núcleo de Comunicação

  3. Quero dar meu parabéns ao trabalho da Casa das Oficinas. Alguns anos atrás, dei uma capacitação sobre Boas Práticas de Manipulação ao membros da oficina culinária da Casa e fiquei surpreendida com os questionamentos que foram feitos , que demonstravam o quanto eles eram realmente profissionais e que trabalhavam com seriedade.
    A Casa das Oficinas muito além de gerar renda, está construindo cidadana, autonomia , solidariedade e a quebra de muitos preconceitos.
    Fabiana- Téc. Vig em Saúde – VISA Noroeste

  4. sibele Martins on said:

    Parabéns ao Forum por tantas trocas, rede de cuidados, e a Casa das Oficinas pela entrevista da Andréia, tão esclarecedora deste lindo trabalho.
    Grande abrç,
    Sibele

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