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Carlos Gomes

CS Carlos Gomes: intersetorialidade sensível para acolher e sólida para o resgate da cidadania

O CS Carlos Gomes fica na área rural de Campinas, no Distrito de Saúde Leste, com acesso por estrada de terra e opera no local com a infa-estrutura disponível. Seu primeiro Conselho Local foi eleito em 25 de setembro de 2009. Há cerca de sessenta anos era um bairro agitado, com um comércio local intenso que atendia aos moradores. Tinha até um cinema. E as fazendas eram muito populosas e produtivas. Existiam festas, e a Festa Junina foi tradição até bem pouco tempo. Com a industrialização, muitos produtores foram abandonando a produção agrícola e dispensando os trabalhadores. Hoje pouco de agricultura ainda resiste, e praticamente não existe comércio local.

A área de abrangência é grande: bairro Gargantilha, Recanto dos Dourados, Monte Belo I e II, Carlos Gomes. Os equipamentos sociais são uma Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio, uma Escola Municipal de Educação Infantil, algumas igrejas católicas e evangélicas, a Fazenda Padre Haroldo, e ainda uma Comunidade Terapêutica Feminina, uma outra ONG que faz trabalhos com a população de uma área de ocupação, o Hotel Fazenda Solar das Andorinhas, a Fazenda Tozan, e Furnas.

“Fizemos uma leitura preliminar, e sentíamos que poderíamos estar mais próximos desta faixa etária (adolescentes), até para trabalhar com as questões de meio ambiente, pois a região é tombada como patrimônio ambiental. Junto com o Conselho Local tivemos a idéia de fazer uma festa para tentar esta aproximação, e a Nana, uma conselheira e liderança da região sugeriu a festa junina que há muito tempo não acontecia. Aí a idéia rapidamente cresceu, e convidamos a escola para participar, bem como os demais protagonistas locais”, disse. Confira entrevista:

Carta da Saúde – O Centro de Saúde Carlos Gomes tem sido bastante criativo por conta de uma especificidade de sua área. Você pode explicar aos nossos leitores, especialmente o trabalho com grupos que vocês realizam?

Elisabeth Amstalden: Não existe um conglomerado populacional. Os moradores deste território estão dispersos, espalhados nesta região rural que é muito grande. Temos optado pela realização de grupos em locais de algum fluxo de pessoas ou onde há alguma concentração. Então é o comércio, algumas instituições. São lugares onde a gente pode deixar esta população se encontrar, resgatar um pouco a cultura da conversa. Temos feito Grupos no Gargantilha, no bairro Recanto dos Dourados, e oferecemos grupos aqui na unidade também. Esta população não está acostumada a participar de grupos, e isso tem sido novo. Desta forma nós pretendemos chegar às famílias. Além dos grupos temos utilizado as visitas domiciliares, em que fazemos visitas aos núcleos familiares e não somente a um indivíduo daquela família. Desta forma buscamos realizar o resgate social desta família e tentamos manter o vínculo dela com o Serviço. Não é de costume desta população, não é de hábito dela, a gente sabe que, na história deste bairro, já houve muita agitação, muita efervescência, muito convívio. Havia muito comércio local, encontros, festas comunitárias. Isso os moradores mais antigos nos contam. Tinha cinema, tinha teatro. Coisas que foram se perdendo devido ao abandono da agricultura, restando muito pouco desta atividade.  As pessoas foram procurando as cidades, a zona urbana. Mudou o perfil da região. E perdeu-se a cultura do encontro, da conversa, dos vizinhos, das famílias se reunirem. Nos grupos que realizamos há uma tentativa de resgatar essa vida que a região já teve.

Carta – Existe um olhar especialmente voltado à juventude. Por quê?

Elisabeth: Sim. Nós temos uma especial preocupação com os jovens. Temos uma dificuldade de acesso a eles. Sabemos que há uma quantidade fora da escola e uma quantidade importante de gravidez na adolescência. E o nosso desafio tem sido este: Trabalhar preventivamente com estes jovens. Temos feito os grupos e as conversas com as famílias para tentar atraí-los e trazê-los para o acolhimento individual. Neste atendimento individual é que nós temos tentado fazer o vínculo e a prevenção das doenças. Ainda não atingimos o nosso objetivo, mas temos vários casos de adolescentes que nos procuram individualmente. A gente sente isso, e isso é muito bom.

Carta – A unidade Carlos Gomes ainda é novo como Centro de Saúde. Você poderia nos contar um pouco da história deste serviço?

Elisabeth: O Centro de Saúde Carlos Gomes era um Módulo do Programa da Saúde da Família, ligado ao Centro de Saúde Taquaral e que há três anos está em transformação de Módulo para a condição de Centro de Saúde. Quando era módulo, ele funcionava duas vezes por semana, das oito da manhã às três da tarde, e ficava fechado na hora do almoço. Então o acesso da população ao Serviço era restrito. Há mais ou menos três anos, como disse, ele está abrindo de segunda a sexta, das sete e vinte da manhã às dezesseis e vinte, e estes horários estão relacionados aos horários dos ônibus que aqui passam. Neste período estamos tentando construir uma intersetorialidade sensível para acolher a população e sólida para podermos resgatar essa cidadania na região. Para isso nós criamos uma Intersetorial que envolve o Centro de Saúde, a escola, a creche, a Administração Regional, as ONGs que temos na região.

Fabíola de Paula Estival: E também a Secretaria de Assistência…

Elisabeth: Que tem sido aqui o principal parceiro. Começamos assim a criação dos grupos, e temos conseguido um trabalho maravilhoso com nossos funcionários na questão do Acolhimento e do Vínculo com os pacientes. Isto realmente foi uma mudança importante. Os funcionários eram lotados no Centro de Saúde Taquaral e agora eles são lotados aqui mesmo. Eles são funcionários daqui deste Serviço, eles escolheram este Serviço para atuar. Temos observado que o vínculo e o acolhimento mudaram para melhor. As pessoas já sabem que podem procurar o Centro de Saúde e que serão acolhidas. Sua história será acompanhada, a equipe busca dar resolubilidade aos casos que chegam e, no Acolhimento, nos Grupos, são trabalhadas as questões do cuidado e da prevenção.

Fabíola: Muitas vezes os pacientes têm pelo menos um funcionário como referência. Eles já chegam perguntando sobre aquele funcionário. A questão do Vínculo mudou para melhor depois que os funcionários ficaram fixos aqui, lotados aqui no CS Carlos Gomes. É o compromisso que a gente assume com a população, de estar com o Serviço aberto, disponível.

Elisabeth: E eu gostaria de destacar o respeito que a população tem pela equipe, com o profissionalismo da equipe. Mesmo que a pessoa chegue aqui com um problema social, do qual nós não podemos dar conta de resolver, esta pessoa será ouvida, será entendida pela equipe. E vai ser encaminhada da melhor forma possível. Com isso as pessoas, a população, os moradores desta área, acreditam no Serviço. Muita gente que não usava o nosso Serviço passou a usá-l o.

Fabíola: Um indicador da nossa credibilidade enquanto Equipe de Saúde é que quando uma pessoa chega para fazer um curativo, simples, sem urgência, mas a Sala de Curativo, por conta do espaço que temos para trabalhar, está sendo ocupada para outra atividade mais emergente, eles entendem e colaboram. Esperam e não nos culpam. Eles sabem que este espaço é pequeno e que a equipe está trabalhando.

Elisabeth: Nós já tivemos uma ocasião em que foi muito interessante porque temos o Grupo de Acesso à Odonto. A Odonto chama os pacientes que querem fazer tratamento Odontológico para uma explicação de como fazer a prevenção da cárie, como escovar corretamente os dentes e quem participa deste grupo vai sendo agendado para o tratamento. E ocorreu de, em uma ocasião, haver muito mais gente do que se esperava. Era muita gente neste grupo que é aberto. Vem quem quer. Nós consultamos estas pessoas e sugerimos organizar de acordo com os casos que fossem prioridade. Eles aceitaram. Isto para mim significa confiança no Serviço, confiança de que a pessoa vai ser acolhida. Nossa realidade é esta. Se a gente não tem um local para coleta de exames laboratoriais, teremos de utilizar um espaço compartilhado. Para fazer curativo naquele mesmo espaço, precisamos preparar a sala para isso, limpar o local. Mas não dá para fazer ao mesmo tempo, na mesma sala, coleta de exames, curativos e eletrocardiograma. Nisto a população tem sido muito compreensiva com a equipe. Os moradores da nossa área nos respeitam muito.

E para “desestressar” a equipe que trabalha num espaço físico tão pequeno, foi criado um momento onde trabalhadores e usuários fazem juntos exercícios de respiração e alongamento, alguns minutos por semana, que tem tido adesão de todos, e mostrado um resultado positivo e satisfatório.

 

 

 

 

 

 

 

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