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Saúde do trabalhador

A equipe do Cerest, mesmo encontrando-se diante de um paradoxo enquanto autoridade sanitária, topa o desafio de experimentar alternativas para atender a demanda dos trabalhadores da Secretaria de Saúde.

Um grupo de trabalhadores do SUS Campinas trouxe aos técnicos do Centro de Referência Regional em Saúde do Trabalhador (Cerest) questões que envolvem o adoecimento provocado pelo trabalho. Com ênfase nos aspectos da Saúde Mental, o Serviço acolheu os trabalhadores. Foi sobre este assunto que a Reportagem da “Carta da Saúde” entrevistou Vera Salerno, que é médica do Cerest:

“Consideramos que  precisávamos ouvir essas pessoas. Então, organizamos este Grupo de Escuta, com objetivo de trocar experiências para ver o que poderemos fazer. Não há ainda nada estruturado”. Confira a entrevista:

Carta da Saúde – Como é desenvolvido o trabalho de Saúde Mental do Cerest voltado aos trabalhadores do SUS Campinas?

Vera Salerno: Eu vou te contar os motivos que nos levaram a tomar essa iniciativa e você vai entender como foi desenvolvido.  A gente sabe que o trabalho provoca sofrimento mental. Esta é uma informação que já está dada. Temos atendido aqui no Cerest pessoas de vários ramos de atividade com relato de que sofreram pressão no trabalho, violência psicológica, cobrança excessiva e adoeceram mentalmente, com depressão, estresse, ansiedade.  Assim resolvemos organizar, para os nossos pacientes, um grupo de escuta que desse a eles a oportunidade de contar o que estão vivendo e, ao contar e ver que outras pessoas também estão passando pela mesma situação, ficarem mais confortáveis ao constatar que não são os únicos a viver aquilo.  Quando  fomos divulgar esse grupo nos Centros de Saúde e nos Caps, os trabalhadores disseram que também sentiam necessidade de participar de um grupo assim. Faz pouco mais de um ano que isso vem acontecendo. Além disso, outras pessoas, que não pertencem à Rede SUS, como por exemplo, professoras, pessoas que trabalham em creches, também manifestaram interesse em participar. Consideramos que  precisávamos ouvir essas pessoas. Então, organizamos este Grupo de Escuta, com objetivo de trocar experiências para ver o que poderemos fazer. Não há ainda nada estruturado.

Para os outros pacientes, fizemos um grupo chamado de Grupo Aberto de Apoio, de prevenção e resistência ao assédio moral. Ali as pessoas contam suas experiências e no próprio grupo é discutido o que dá para fazer para aliviar o sofrimento. O tratamento da doença mental não somos nós que fazemos, mas a equipe que está cuidando, seja do Caps, seja outro Serviço.  O nosso papel tem sido o de ouvir sobre os sofrimentos das pessoas e compartilhar com elas quais medidas poderiam ser tomadas, por nós do CEREST e pelas pessoas que participam do grupo, de modo a tornar mais tolerável ou suportável a situação que têm vivido. E muitas vezes, só de ouvir e constatar um mesmo relato, as pessoas já se sentem confortadas. Foi isso que nós já realizamos até aqui.

Carta – Como foram os relatos das pessoas que já participaram?

Vera: Basicamente dois tipos de relatos. Um específico da relação com o gerente, da gestão de uma unidade determinada. Da relação entre gestor e funcionário. O outro relato que apareceu foi mais relacionado à organização do trabalho. Na Secretaria de Saúde, de uma forma geral, há uma dificuldade nas relações hierárquicas e de fluxos. O que apareceu nos relatos: “Ah, o que que eu faço com tal caso? Para onde eu mando tal caso? Com quem que eu discuto esta situação? Quem é que domina este assunto?”. Isso gera estresse. A pessoa fica com um paciente grave, ou mesmo que não seja um caso grave, mas com um problema crônico, que ela não sabe para onde encaminhar.  E aí eu quero explicar qual é a nossa dificuldade. Quando eu cuido de um trabalhador que não é meu colega, para o qual eu consigo olhar objetivamente e ver o processo de intervenção, consigo atuar, digamos, de modo mais desapegado. Por outro lado, quando os meus colegas trazem um problema que temos em comum, e que é a organização do trabalho na Secretaria Municipal de Saúde de Campinas, eu me envolvo na queixa.  E nós estamos discutindo isso: Como nós vamos lidar com essa situação, tendo em vista que nosso patrão é o mesmo? Como é que vamos fazer para sermos objetivos e não nos envolvermos pessoalmente? Não faz sentido atuar como autoridade sanitária, que dá prazo ao empregador para cumprir a lei e estabelece punições em caso de descumprimento. Mas nós vamos fazer isso com a Prefeitura de Campinas?

Carta – O que é necessário para resolver esta situação? O que os Serviços podem fazer?

Vera: Eles trazem relatos de dificuldades. É assim: “Eu estou sofrendo, mas estou trabalhando”. Parece que há  predominância de funcionários novos e falta de gente que de fato conheça o funcionamento da rede, tanto nas unidades como nos Distritos. E isso em diferentes Distritos. No dia a dia de um serviço de saúde pública surgem situações que não estão previstas. São casos específicos, singulares. É uma pessoa com todas as suas particularidades. Aí o trabalhador da unidade começa a procurar encaminhamento para aquela situação, na unidade mesmo, fora dela também. Começa a “via crucis”: a pessoa que saberia resolver não está no Distrito naquele dia, “ah, liga novamente na semana que vem”; a pessoa, o trabalhador fica lá, às vezes diante de uma família, e não sabe dar encaminhamento ao caso. Há uma porção de trabalhadores novos que não têm sequer uma cartilha de procedimentos para saber encaminhar o caso que acolheu. Mesmo que apareça um problema repetido, ele é tratado como problema novo. Gasta a energia do trabalhador com uma situação que para ele se torna insolúvel. Isso desgasta muito. O que a gente também nota é que existem poucas pessoas para resolver de fato as demandas e que as pessoas que acolhem nas recepções, por exemplo, estão à mercê de todo o tipo de emoção do usuário e não têm suporte nenhum para isso. Elas ouvem as reclamações, todos os desaforos, as ameaças, até por conta de um problema que muitas vezes é estrutural e ela não tem como resolver e nem como discordar do usuário. O usuário chega num ponto que quer pular o balcão para brigar e essa situação não é rara. Uma pessoa agride e xinga a outra. Aí o trabalhador chega aqui para a gente: “Eu não sou isso de que me xingaram. Eu não sou uma vagabunda. Eu só queria trabalhar”.  O usuário vai reclamar lá na ponta, nas unidades, nos serviços. E o trabalhador de saúde ouve tanto isso que em algum momento a auto estima dele tende a cair mesmo. Ou seja, são todos problemas de organização, de excesso de demanda, de falta de funcionários onde precisa. E um relato desses sugere uma gestão que não dá conta, uma gestão que não resolve problemas. Que acabam transformando um problema estrutural em sofrimento do trabalhador. O trabalhador é acuado o dia inteiro e quando vai falar alguma coisa para a gestão ele ouve: “Mas é você que não está trabalhando direito”. Se o Centro de Saúde tem oitenta funcionários, os oitenta estão reclamando da mesma coisa, então eu penso que, se todos estão reclamando, é possível não não se tratar de um problema individual, de determinado trabalhador ou de determinado centro de saúde.

Carta – O que as coordenações dos serviços podem fazer para mudar esse quadro?

Vera: O caminho que sugiro é básico para todos. Em primeiro lugar que a gestão ouça. Tem uma expressão em saúde do trabalhador que é “grupos homogêneos”. Por exemplo: enfermagem, agentes comunitários, ou, todos os trabalhadores da recepção, sejam da enfermagem ou administrativos. Ter um critério de juntar quem tem a mesma tarefa ou tem cargo semelhante. E ouvir. Ouvir o que as pessoas têm para narrar, para descrever do dia a dia delas e o que está acontecendo. Mas tem que ouvir com coração aberto. Sem nenhum tipo de preconceito. E o trabalhador costuma dar resposta do ponto de vista dele, dizendo: “Eu acho isso, isso e aquilo. Eu acho que deveria ser assim…”. Muitas vezes o trabalhador, se conhecer a atividade que realiza, terá propostas práticas, aplicáveis e que podem resultar em soluções satisfatórias. Se a gestão conseguir ter a serenidade de escutar o que as pessoas estão falando e trabalhar isso junto com a equipe, estará na minha opinião seguindo um caminho seguro para resolver conflitos. Assim mesmo, ouvir o que as pessoas propõem e o que dá para fazer. Mas não é isso acontece. Os relatos são que o gerente falou que veio uma ordem de cima e é assim que tem que fazer, “a gente não concorda, mas cumpra-se”. Sinto uma tendência em esconder o conflito. Eu penso que o caminho de ouvir as propostas é um caminho adequado. Outro caminho é as pessoas se mobilizarem enquanto trabalhadores, procurarem seus sindicatos, suas defesas.

Opine: comunica.smscampinas@gmail.com

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