Carta da Saúde

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Bicho Carpinteiro

Sada: “Não focar nas fraquezas e sim nas forças”

 

 

 

O Sada, Serviço de Atenção às Dificuldades de Aprendizagem, do SUS Campinas, na Policlínica III (ao lado do Mário Gatti),  participou da produção de um livro intitulado “Bicho Carpinteiro”, feito para crianças e adolescentes. O lançamento do livro foi no dia 17 de novembro. Trata-se de parceria com a Fundação Educar. O título é assinado pela fonoaudióloga Cláudia Cotes e ilustrada por Caio Yo. Após o lançamento a Reportagem da “Carta da Saúde” procurou o Sada para saber mais sobre o história deste Serviço.

Agora ao final das férias escolares, é Rosângela de Fátima Villar, quem faz este resgate e conta sobre o trabalho realizado no Sada. “Para poder ajudar a alavancar o desenvolvimento das crianças e adolescentes é preciso um olhar integral, lastreado na confiança de que todos aprendem. Eles chegam aqui geralmente com rebaixamento da estima , dizendo que não dão conta, que não conseguem, que se consideram um fracasso, que não conseguiram aprender a ler nem escrever, que não sabem fazer nada. Acham que isso tudo é culpa deles; mas, na verdade, só pensam isso porque alguém  lhes disse que  eles é que têm problemas”. Leia o conteúdo desta entrevista:

Carta da Saúde – Qual foi o papel do Sada na produção do “Bicho Carpinteiro”?

Rosangela de Fátima Villar: Fomentador da idéia. Temos já uma antiga parceria com a Fundação Educar, na distribuição gratuita de livros, para o estímulo à leitura de crianças, adolescentes e seus familiares, e divulgação aos profissionais com que trabalhamos. Eles têm uma coleção temática interessante. Distribuímos alguns títulos para nossos usuários, propondo reflexões e atividades com os livros. Percebemos que faltava um tema que é recorrente aqui no Sada: o das crianças agitadas,  desatentas, ou desligadas,e que chegam aqui como tendo “dificuldade de aprendizagem’. Quando se conhece a história dessa criança, o que encontramos sempre, é que há motivo para ela estar do jeito que  está:  questões significativas de ordem  emocional ou, mesmo,  ser uma característica dela. Há crianças, há pessoas mais agitadas e pessoas mais tranquilas – traços de personalidade. A gente precisa aprender a respeitar as diferenças. Então pensamos: ‘Que legal se  tivéssemos um livrinho de história que trabalhasse  com essa temática.  Levamos a proposta para a Fundação, que acionou a Cláudia Cotes,  fonoaudióloga e escritora de livros. Sentamos juntas, a equipe do SADA,  a Cláudia e a Educar,  pincelamos um roteiro, demos algumas idéias para ela, lastreadas em nossa experiência clínica.  Participamos também da revisão,  buscando  adequar  o vocabulário e ampliar possibilidades, eliminando os  determinismos para o futuro do Rafael, o personagem do livro e enfatizando que existem  diferentes formas de mediação e elas levam para diferentes e saudáveis projetos de vida. E isso é o que interessava para a equipe do Sada.

Carta – O que você considera determinismo?

Rosangela: Determinismo aqui, seria dizer que se a criança é agitada, desatenta,  ela certamente terá dificuldades de aprendizagem e terá comprometimentos em seu desenvolvimento e sua vida.  A gente não  trabalha com  esse olhar. Para poder ajudar a alavancar o desenvolvimento das crianças e adolescentes é preciso um olhar integral, lastreado na confiança de que todos aprendem. Eles chegam aqui geralmente com rebaixamento da estima , dizendo que não dão conta, que não conseguem, que se consideram um fracasso, que não conseguiram aprender a ler nem escrever, que não sabem fazer nada. Acham que isso tudo é culpa deles; mas, na verdade, só pensam isso porque alguém  lhes disse que  eles é que têm problemas. Uma pessoa não fica arrumando problema para ela mesma. Ela não fica se desqualificando por que quer. É de tanto os outros falarem que a gente acaba se apropriando desses rótulos  – que nos são ‘dados’. E essas crianças/adolescentes, muitas delas, chegam aqui num extremo sofrimento. Tem criança que chega aqui sem querer chegar perto de um papel, de um livro ou de um lápis. Se você fala para ela que infelizmente não dá para ficar longe desse material, porque a sociedade em que  vivemos perpassa por este instrumental, a criança entra em desespero. Daí entra o nosso trabalho: aproximá-la desses instrumentos, com confiança em sua capacidade de lidar com eles. O nosso papel é ajudá-la a reconhecer seu  mal estar e seu sofrimento e fazê-la perceber que pode se desenvolver; que o caderno, o papel,  o livro podem ser  coisas legais, gostosas, prazerosas, lúdicas, e que através deles  ela vai poder aprender muitas coisas. Muito mais do que somente ler e escrever  e fazer contas – embora  ler e escrever já sejam coisas muito importantes –  mas é mais do que isso: é participar mais efetivamente desse nosso mundo.

Carta – A suposta dificuldade de aprendizado também pode ser uma dificuldade de ensinar?

Rosangela: Com certeza. Por isso é preciso ter um olhar bem amplo – o que chamamos de olhar integral. A criança ou adolescente, quando chega no SADA   – e ai já saímos da temática do livro, porque não tem a ver  apenas com criança agitada  ou desatenta –   desencadeia na equipe a necessidade de  entender a história de vida dela. Isso,  desde a gestação, como foi o processo de criação, as formas de mediação, quem ajudou  em seu processo de desenvolvimento. Foi inserida na educação infantil ou não? Foi uma criança que ficou abrigada, foi uma criança que não teve pai e mãe junto dela? Foi uma criança que a cada seis meses a família estava em um lugar diferente, uma comunidade e uma escola diferentes? Às vezes, essa criança não conseguiu ter nenhuma estrutura estável… São exemplos de situações que a gente tem que entender para poder pensar em como ajudar esta criança. E não deixar que o peso da história de vida dela seja lido como: ‘Ela é o problema’. Ou: ‘É ela que não aprende’. Na maioria das vezes, podemos afirmar:  não é ela que não aprende, são as condições de vida, o seu desenvolvimento, o meio, amigos, família, escola, é que podem não ter sido tão benéficas para ela. E aí, quando você mexe um pouquinho nessas variáveis,  a gente tem uma criança que volta a aprender normalmente . Nunca foi um problema dela;  ela apenas estava reagindo ao mundo no qual  vive.

Carta – Como começou este trabalho do SADA? É possível fazer um breve resgate histórico?

Rosangela: Começou em 1983. Foi a primeira sementinha do SADA. Anteriormente ao SUS, época do SUDS, ainda. Campinas foi pioneira na assinatura do convênio com o Ministério e a gente participou dessa efervescência toda. Houve a contratação de uma  Fonodaudióloga (Maryara Molina) e de uma Psicóloga – aqui entro eu –  no então Ambulatório de Saúde Mental da Prefeitura.  Já tínhamos   uma  parceira neste equipamento, outra Fonoaudióloga (Cleyde Molina), e,  por demanda do Serviço, aliada a nossa experiência na área,  passamos a  atender crianças e adolescentes com queixa de dificuldade de aprendizagem, pois havia uma fila de espera muito grande e nenhum outro profissional trabalhava com isso. Concluímos, depois de alguns meses,   que, sem a construção de  redes de atenção com parceiros, a gente não iria dar conta – cada vez chegavam mais crianças. Nelson era o secretário de Saúde na época e ele nos incentivou no trabalho de construção da intersetorialidade.  Já em 1984, começamos  trabalhar com a Secretaria Municipal de Educação, em ação de  assessoria a profissionais da Educação e em 1990 a gente abarca  também as escolas da Secretaria de Estado da Educação de Campinas.

Muitas vezes a escola rotula seu aluno  como alguém que não aprende, contudo,  o profissional da Saúde também o faz. O profissional da Saúde distribui o rótulo de que a criança é disléxica, de que a criança tem TDAH – temática deste livro.  Nosso papel é de ajudá-los a ampliar o olhar e sair  dessa necessidade de  rotulação;  porque não ajuda ninguém o uso de um  rótulo. Nenhum de nós tem  algum progresso porque ganhou um CID. A gente precisa saber qual é a forma de lidar com isso,  independente de ter um CID ou não. O nosso objetivo é que as crianças cresçam e sejam felizes e aproveitem o aprendizado. Que elas possam ter projetos de vida saudáveis.

Carta – Quando que o SADA foi formalizado?

Rosangela: 2000/2001. Antes disso ele teve outros nomes. Era um serviço que não tinha outra referência no Brasil – era  único, pioneiro  em uma série de ações. Hoje sabemos da existência de outros serviços que, embora não sejam iguais, possuem uma vertente  parecida. Porém, na época em que começamos, a gente realmente desbravou este campo de atuação enquanto  profissional do SUS. Quando o Ambulatório de Saúde Mental teve suas ações descentralizadas, o Departamento de Saúde manteve centralizado  este Núcleo,  o de  ‘Saúde Escolar/Psicopedagogia’. Atualmente somos um setor de especialidade  da Policlinica III.

Carta – Como esta hoje este Serviço?

Rosangela: Vemos o SADA  hoje,  como um serviço especializado de interface na  Saúde Mental. As ações que desenvolvemos aqui, uma parte delas, não dá para ser desenvolvida na ponta. Não existem pessoas nem recursos para tanto. Nós trabalhamos com foco exclusivo nos processos de aprendizado e desenvolvimento de crianças e adolescentes. Fora os bebês, cujo desenvolvimento é muito acelerado, o segundo grande pico de desenvolvimento é a entrada da criança no processo de escolarização, com a  construção de conceitos/ferramentas que são fundamentais para a vida:  a leitura, a escrita e o raciocínio lógico matemático. Na sociedade em que vivemos, quem não se aproxima destas ferramentas sofre. É como falar da tecnologia da informação. Hoje em dia, quem não se apropria desta ferramenta, nesta geração que esta aí, vai sofrer, porque tudo esta lastreado na informatização. A gente usa esses conceitos/ferramentas da faixa de escolarização para poder ajudar a alavancar o crescimento das crianças.

Carta – Ocorre de você concluir que são crianças que tinham uma potência não reconhecida?

Rosangela: Sim. É o que este livro também conta. Que todo mundo tem talento! Que as pessoas têm talentos. E os talentos devem ser muito mais valorizados do que as dificuldades. Todo mundo tem dificuldades. E cada um de nós tem a sua  – geralmente,  não queremos  que ninguém saiba delas, não? Nós que somos adultos e que já temos nossas ferramentas de auto-avaliação, geralmente conhecemos nossas potencialidades e nossas dificuldades;  mas, as crianças ainda não têm esse conhecimento – elas estão construindo isso e a avaliação do outro é marcante.  O trabalho da equipe do SADA é fazer com que cada um que passe por aqui descubra que, além das dificuldades, tem potencialidades que devem ser exploradas e que sua felicidade depende desse movimento de reconhecimento. A  pergunta: O que eu posso fazer para ser feliz, dando o melhor de mim e deixando meio  de lado as minhas dificuldades? Se todos têm dificuldades, porque que eu vou focar só nas minhas dificuldades? A gente tem uma frase marcante para nosso trabalho, vinda  de nossa supervisora, a Maria Helena Stroili, que sempre nos lembra: não focar nas fraquezas, sim nas forças. E isso tem feito a gente colher frutos saborosos com nossos usuários. Para que isso seja efetivo, quando a criança chega ao SADA, não trabalhamos  só com ela: trabalhamos também  a família, a escola e outros equipamentos e outras pessoas que atuam  com esta criança. É preciso somar forças. Por exemplo: Quando  digo para uma  criança o quanto ela é boa, o quanto ela, por exemplo, desenha bem, quando a convido a aproveitar aquele desenho para fazer um livro,  uma história,  eu a estou aproximando do livro (leitura, escrita, compreensão de linguagem) a partir de uma coisa que ela gosta. Mas, se quando ela chega em casa, alguém diz que o desenho dela é uma porcaria, que aquele menino nunca vai ser um escritor, temos um conflito se (re)instalando na vida dessa criança – atravancando seu desenvolvimento.  Por isso  a equipe do SADA  trabalha  a família, a escola, e outros equipamentos que atuam com ela.  Todo mundo precisa somar forças neste olhar. Precisamos de parceiros que nos apoiem no processo de alavancar o crescimento deste sujeito. Cada criança que chega aqui, traz  uma família e uma escola e  os profissionais de saúde que a acompanham no dia a dia.

Carta – Como que as crianças são encaminhadas ao SADA?

Rosangela: Sempre através dos Centros de Saúde. O SADA não é um serviço  de porta aberta. É  um serviço de especialidade e tem um guia no site da prefeitura que é o guia de encaminhamento para o SADA, o qual se encontra na Área de Especialidades do site. Lá existe tanto um guia,  quanto um texto orientador, explicando como e o que  encaminhar, pois há ações possíveis de serem feitas na ponta, antes mesmo do profissional do Centro de Saúde sair dizendo se  ela é ou não uma criança do SADA.   Se  a criança é encaminhada aqui para o SADA,  querendo ou não, tem um peso – ela precisa de uma ajuda maior que as outras! Se ela puder se mantida, por exemplo, em um Centro de Convivência, em um grupo no Centro de Saúde –  um grupo de estimulação, por exemplo…  isso é mais positivo para sua vida.  Se essas iniciativas trouxerem uma resposta, contemplarem as necessidades desta criança, ok. Caso contrário passa a ser necessária uma   avaliação/acompanhamento na especialidade.

Carta – O SADA matricia a Atenção Básica para isso? Como que os Centros de Saúde podem trabalhar com vocês?

Rosangela–  O Nelson era o secretário de Saúde na época e ele nos incentivou muito: A gente tem aqui no SADA as duas vertentes, a saúde ‘curativa’ e a saúde preventiva. O  tempo todo os profissionais deste serviço precisam ter os dois tipos de olhar. A gente começou lá atrás a matriciar os profissionais da educação, tanto do Estado quanto da Prefeitura. Na década de noventa a gente começou a desenvolver este trabalho de qualificação dos profissionais da saúde, inicialmente com os profissionais da Saúde Mental, quando ocorreu a descentralização de ações. De lá para cá não paramos mais: temos reuniões sistemáticas em vários Distritos de Saúde. Além disso, a equipe  mantém a porta aberta e o telefone disponível para a Rede de Saúde. E hoje tem também o nosso e-mail – sada.campinas@ig.com.br. O SADA pode ser requisitado para discutir  casos – de alguém em acompanhamento conosco ou quando há dúvida sobre se é caso ou não para um trabalho psicopedagógico.  Para as discussões solicitamos a  história de cada uma dessas crianças, pois só com o conjunto dessas informações, podemos ampliar olhares e possibilidades sobre elas.

Carta – E possível também que uma unidade que não tem nenhum caso procure o SADA para criar projetos, digamos, preventivos?

Rosangela: O Centro de Saúde São José é um exemplo. Eles ligaram aqui, marcamos um dia, conversamos, trocamos idéias, sugerimos ações. Eles queriam criar um Grupo de Família, que trabalhasse simultaneamente com um grupo de  crianças. Nestes grupos a equipe do São José avaliaria o que poderia ser oferecido de melhor para cada caso – um grupo orientador. A equipe do SADA participou de algumas versões desse projeto e atualmente, a equipe do São José é autônoma na sua realização.

Carta – O que você sente quando vê esta mesma criança que chegou aqui com a auto- estima no pé, trazendo depois um sorriso, igual a este que você esta me dando?

Rosangela: Eu fico muito feliz.

(pausa)

Eu brinco… Já fui, inúmeras vezes, em quase trinta anos de prefeitura, convidada a estar fora do atendimento clínico, para estar em outras funções, mas eu não consigo. Para mim o que eu faço é fundamental. Para as meninas que vão chegando eu sempre conto que, da equipe original, eu sou a única que ficou. Eu tento passar para elas essa ideia de que, se você investe, se você planta,  se você cuida, se você cultiva, é muito provável que você irá colher. Esta pessoa que chega aqui,  em pleno sofrimento,  daqui  a mais ou menos  seis meses, um ano (ou dois que seja – para os casos mais complexos), será outra – nós  (não apenas o SADA, mas também os parceiros) a teremos ajudado a se conhecer e crescer mais feliz. E a equipe toda se une nessa postura. Daí, com apenas cinco profissionais, conseguirmos desenvolver todas as ações que fazemos.

Opine: comunica.smscampinas@gmail.com

Leia também: Sada e Dpaschoal lançam livro que aborda a hiperatividade infantil

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