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Centro de Convivência Viver e Conviver: Quebrando o isolamento, promovendo Saúde

A série de reportagens sobre os Centros de Convivência, iniciada na edição Doze da “Carta da Saúde” continua. Entrevistamos Jaime de Oliveira Santos. Ele coordena o Centro de Convivência Viver e Conviver, na Vila Boa Vista, Distrito Norte. Educador social, ele recebeu a reportagem da “Carta” para explicar a relação deste Serviço com a Comunidade e com a Rede SUS Campinas.

“Os estudantes da área da saúde da Unicamp que faziam estágio aqui no CS Boa Vista, fizeram um trabalho para  verificar a influência do Centro de Convivência nas vidas das pessoas, como também na agenda e no fluxo do Centro de Saúde. Nós acompanhamos este trabalho e temos tudo documentado, foram gravados os depoimentos de pessoas que iam lá três ou quatro vezes por semana, e que passaram ir uma vez por mês ou menos”, disse Jaime. Confira a entrevista:

Carta da Saúde – Jaime, como é a atuação do Centro de Convivência Viver e Conviver?

Jaime Oliveira Santos: Nossa atuação tem sido voltada para a inclusão e a integração da nossa comunidade aqui da Vila Boa Vista. Nós trabalhamos em uma comunidade que tem seus problemas específicos, que a cidade conhece, e que é um problema grave aqui. Por isso as pessoas aqui do bairro, principalmente os idosos, vivem muito presas dentro de suas casas. Prestando atenção a esta situação, buscamos desenvolver atividades que pudessem colaborar com uma mudança no cotidiano dessas pessoas. São muitas mulheres, donas de casa, que se sentem isoladas, reclusas dentro de suas casas, com muitas queixas de hipertensão, e de sofrimento mental, emocional, devido à problemática das drogas. A gente sabe que aqui no bairro a venda de drogas é grande. E isso influencia muito no modo de vida da comunidade. Isso faz com que muitas pessoas não saiam mais de casa. Contribuindo para o isolamento social. No início dos trabalhos, nossa preocupação era, e ainda é, com essas pessoas que se sentiam acuadas dentro de suas próprias casas.  Com esta intenção começamos um grupo de mulheres chamado “Maria Mulher” que deu origem a Oficina de Arte, depois veio a Terapia Comunitária, Movimento Vital Expressivo, pintura, sempre em rodas de conversa, núcleos. Neste contexto, a gente pode ir observando, ouvindo, fazendo uma escuta mais qualificada das questões das pessoas da comunidade, para perceber o que motiva o adoecimento. Ao ouvir e interpretar seus desejos, buscamos implementar estas atividades, e realizar a integração intersetorial com as escolas, as creches. Detectamos  também  a necessidade de organizar um grupo de crianças e de adolescentes, porque é muito difícil trabalhar com os adolescentes. Então, em vez de esperar que eles viessem até aqui, nós fomos até a escola, para, por exemplo, trabalhar temas como a sexualidade, que é de extrema importância para esta faixa etária.

Carta – Você considera que existe dificuldade para os adolescentes acessarem a Rede?

Jaime: Existe sim e é um problema nosso. Os adolescentes estão aí e se a gente conseguir falar a linguagem deles, ouvir mesmo, ter uma escuta adequada, que consiga entender seus desejos,  aí a gente consegue. Mas como eles estão lá na escola, eu acredito que o melhor jeito de acessa-los seja indo onde eles estão.

Carta – Mas não tem aqueles que estão fora da escola?

Jaime: Mas estes são poucos. E merecem atenção maior ainda. Hoje as escolas são muito mais acessíveis e através dos adolescentes que estão na escola nós buscamos acessar toda a comunidade. Mas muitas vezes a escola não é inclusiva. As escolas têm graves problemas. A escola expulsa alunos, a escola suspende alunos. Faz isso devido ao comportamento que é próprio de um adolescente, em vez de trabalhar isso que é, às vezes, uma brincadeira mais agressiva, ou até mesmo dificuldade de comunicação, ou o próprio desinteresse da pessoa devido à questões de auto estima, às condições de vida dela. A ideia é acolher justamente aqueles que a escola considera mais problemáticos. Então, temos também um Grupo de Mães, entre as quais, há mães que vão às reuniões de pais e mestres e ouvem um ‘monte’ na reunião e nos procuram porque precisam de ajuda. Realizamos  Grupos de Crianças, Adolescentes e Mães. Também temos Grupo de Casais. E não é só grupo de casal heterossexual. Os casais homossexuais também serão muito bem recebidos nesse Serviço. Nós fomos pioneiros no Brasil com a instituição de um Projeto de Saúde, de Saúde Pública, para Mulheres que Fazem Sexo com Mulheres (MSM), a partir de um conjunto de parcerias, com o Centro de Saúde da Vila Boa Vista, Programa de Aids, com outras áreas do Poder Público, dentre elas o Centro de Referência LGTB, o próprio Ministério da Saúde, e com a Sociedade Civil Organizada à qual damos continuidade a esta forma de atender, sem discriminar. A única preocupação nossa é a de inclusão social, cuidar para que as pessoas adoeçam menos ou não adoeçam, que é o ideal. É a qualidade de vida destas pessoas a nossa produção. Esta é a nossa prioridade, estes são os nossos princípios. E para isso, quero complementar, desenvolvemos o nosso Cuidando do Cuidador, tanto na Terapia Comunitária, como no Toque Terapêutico. O Toque Terapêutico é uma massagem que oferecemos tanto para a população em geral, como para a Equipe da Saúde.

Carta – Quando entramos aqui, chama a atenção a biblioteca, com dicionários, livros sobre religião, sobre informática. Quantos livros vocês têm aqui, como vocês conseguiram reunir tudo isso e como que ela é utilizada?

Jaime: Hoje temos cerca de dois mil livros aqui. Há algum tempo nós doamos uma parcela, cerca de mil livros, para uma biblioteca comunitária do Parque Itajaí. Já chegamos ter 3.500 livros. Todos foram obtidos através de doações. Nenhum foi comprado. As pessoas chegam aqui em busca de algo e notam a biblioteca. Tem livro de economia, de filosofia, de direito, romances, tipo Érico Veríssimo, coleção do José de Alencar, livros infantis. O interessante é que muitos garotos preferem pesquisar nos livros. As pessoas podem pegar o livro e levar para depois devolver, mas também usá-lo aqui e conversar com a gente sobre o que estão fazendo, o que procuram, e ir se integrando. No meio dessa pesquisa, dessa leitura, dessa busca, desenvolvemos a convivência, a inclusão, que é a nossa proposta. O nosso trabalho é o Acolhimento. A inclusão, a convivência ocorrem durante o Acolhimento. Nosso bairro também tem uma importante população idosa. Eles vêm aqui para se encontrar. As atividades são o pretexto para virem aqui. E nas atividades a gente aborda o auto – cuidado, as campanhas, fala de saúde, de inclusão. A gente procura promover a saúde antes do adoecimento. É a saúde preventiva. Procuramos a diminuição da dispensação de medicamentos nas farmácias do SUS, a diminuição das consultas desnecessárias que ocorrem porque o Centro de Saúde acabou sendo o único lugar onde a pessoa tem para onde ir e ser acolhida, e com isso também os exames desnecessários. Os estudantes da área da saúde da Unicamp que faziam estágio aqui no CS Boa Vista, fizeram um trabalho para  verificar a influência do Centro de Convivência nas vidas das pessoas, como também na agenda e no fluxo do Centro de Saúde. Nós acompanhamos este trabalho e temos tudo documentado,foram gravados os depoimentos de pessoas que iam lá três ou quatro vezes por semana, e que passaram ir uma vez por mês ou menos. Pessoas que tomavam muitos medicamentos de pressão e hoje tomam muito pouco, entre outros exemplos que eles trouxeram à tona.

Carta – O que você gostaria de deixar como mensagem à Rede?

Jaime: O que nós temos feito aqui é promover a cidadania estimulando também a participação dos usuários nos Conselhos Locais de Saúde, nos Conselhos da escola, das Associações de Amigos de Bairros, para cuidar de seu bairro, de sua comunidade. E percebemos um crescimento importante desta participação, que gera também a produção de autonomia do usuário. Já temos um Conselho Local de Saúde muito atuante aqui na Vila Boa Vista , que já se mobiliza, por exemplo, para a construção de um novo Centro de Saúde. Este aqui, do ponto de vista do prédio que ele ocupa, já está pequeno. Não cabe mais no lugar que está, faltam salas. O Conselho Local já trabalha há dois anos em cima de um projeto novo.

Opine: comunica.smscampinas@gmail.com

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