Carta da Saúde

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Portal das Artes

Em Campinas, experiência dos Centros de Convivência é única

Nesta edição a “Carta da Saúde” publica a primeira de uma série de reportagens sobre os Centros de Convivência de Campinas. A primeira entrevistada é Sibele Martins, psicóloga, coordenadora do Espaço de Convivência Portal das Artes, na região Sul.

Os Centros de Convivência (Cecos) são dispositivos comunitários que compõem a rede substitutiva de atenção em saúde mental e almejam construir coletivamente espaços de convivência capazes de operar no fortalecimento de vínculos comunitários solidários, através de práticas que promovam cultura, educação, saúde e lazer.

Segundo Sibele, entre as atividades estão: receptividade e acolhimento; práticas coletivas como, atividades verbais, atividades esportivas e de lazer, atividades artísticas e culturais, atividades de educação e cidadania, práticas integrativas, atividades de incubação de geração de renda.

Campinas possui um Fórum de Centros de Convivência. As suas características são o funcionamento pautado em ações intersetoriais; buscando fortalecer  a interlocução com outros atores sociais,  procurando coletivamente propor   novas tecnologias de  produção de espaços de convivência e promover visibilidade às  ações realizadas, que buscam integrar arte, saúde, educação e cultura.

Na área da saúde procura trabalhar integrando a rede entre Cecos, Centros de Atenção Psicossociais (Caps) e Unidades Básicas de Saúde (UBS); a partir das singularidades do território  no qual se inserem.

O fórum não é deliberativo, mas um espaço de interlocução e discussão das politicas públicas, dos princípios, diretrizes, eixos e ações.

Segundo Sibele Campos Martins, coordenadora do Espaço de Convivência Portal das Artes, “os profissionais dos Centros de Convivência precisam  desenvolver no cotidiano práticas de cuidado, marcadas por sutilezas, para que consigam despertar potenciais nos usuários dos serviços. A convivência tem uma aparente simplicidade. Traz, entretanto, uma complexidade, visto a necessidade de cada profissional, mesmo sem formação específica em saúde, realizar  permanentemente  uma análise da própria implicação em relação ao conceito de convivência, no acolhimento da comunidade”.

Carta da Saúde: Qual é a experiência de Campinas com os Centros de Convivência?

Sibele Ribeiro Campos Martins: A experiência de Campinas é única. É diferente de São Paulo, que trabalha também na linha do cooperativismo, e é diferente de Belo Horizonte, onde é unicamente frequentado por usuários de Saúde Mental. Em Campinas, embora estejamos vinculados à área de saúde mental, acolhemos a comunidade na qual estamos inseridos, procurando criar redes sociais para os nossos usuários.

O Fórum dos Centros de Convivência é também uma construção de Campinas.  A partir de nossa experiência elaboramos um documento com os objetivos, características, atividades,intersetorialidade entre outros. Até o momento a coordenação de saude mental do Ministério da Saúde não elaborou nenhum documento para os Centros de Convivência. Esta é uma aposta de Campinas

O Fórum dos Centros de Convivência,  é de grande importância sendo a instância onde são discutimos como ir além, como construir nossa ação no SUS.

Carta: Qual é a história do Portal das Artes?

Sibele: O Portal das Artes surgiu em 2003, do encontro entre a proposta de uma ampliação da clinica da saúde mental no Paidéia e de uma escuta clinica sensível às demandas dos usuários e comunidade em geral, com pouco acesso a bens culturais, que pediam um espaço de encontro, lazer e saúde. Muitos faziam do Centro de Saúde Paranapanema, local de trocas, conversas informais indicando a necessidade de um lugar de promoção de convívio. Muito além  desse espaço do Centro de Saúde, reservado a tratamento e medicalização.

Neste território do Distrito Sul, vivia e ainda vive, uma população vulnerável à violência urbana em suas diferentes faces, adolescentes sem perspectivas de futuro, e também um grande número de idosos.

 Pesquisamos o que queriam e vimos que pediam Oficinas, havia  necessidades  de redes, de fomento de espaços de convivência para esta comunidade neste território,tão central e tão distante. 

Ainda neste momento abrimos no  Centro de Saúde, inscrições para diversas oficinas, e para nossa surpresa, tivemos umas quatrocentas pessoas se  inscrevendo. Nós levamos um susto, surpresa e muitos sorrisos. Então, isso tem efeito! Quatrocentas pessoas se inscrevendo em duas ou três semanas! É isso! O Distrito Sul se movimentou, buscando alternativas, devido a oferta de uma parceira, de uma marcenaria, que inicialmente ficou instalada na casa do Sr. Anésio, um  marceneiro, já falecido, que seria nosso voluntário.  Começamos a procurar um local. O lugar que usávamos até então estava   inadequado para nós. Durante apresentação de nossas necessidades no colegiado do Serviço de Saúde Cândido Ferreira, numa roda com os gestores, foi disponibilizado um recurso previsto no convênio do Cândido com a Prefeitura, a proposta foi acolhida com grande entusiasmo pela coordenadora distrital da época, Teresa Martins. Em 2004, inauguramos o Centro de Convivência Portal das Artes. A casa alugada estava em construção e nós também.

 Carta : E hoje?

Sibele: A população já começa a perceber o portal como um lugar de lazer, de arte e cultura. Temos um profissional que é músico, que estimula as pessoas  a reconhecer seus talentos musicais, ouvir o que gostam e  escutar outros autores musicais. Temos um grupo musical, com participação de adolescentes, cujos membros participam do “Coletivo da Música” do Serviço de Saúde Cândido Ferreira, ganhando outros territórios geográficos, subjetivos e culturais.

A nossa colega administrativa, que soube compreender aquilo que propúnhamos, se dispôs como Oficineira.  Alguns Oficineiros voluntários, que estavam no começo, ainda estão conosco, sendo  reconhecidos pela sua arte de trocar, dizer do que fazem, construindo redes sociais. Tenho a impressão que constantemente respondemos a esta pergunta: “O que vocês são e o que vocês fazem?” E a gente responde todo o tempo: cuidado, arte, lazer e cultura. Não vamos banalizar dizendo que é fácil conviver, se essa comunidade se fecha por motivos óbvios, construímos espaços abertos e acolhedores para oferecer. E para mantermos um espaço digno de ser compartilhado é necessário investimento e financiamento.

Outras colegas sempre dizem: ‘Vocês são interessantes’. Mas isto não basta!  Ainda temos muito trabalho para sustentar uma posição dentro de Campinas e quando a gente sai e vai para outros lugares, quando temos oportunidade de mostrar o trabalho em Congressos,  ouvimos coisas assim: “Campinas tem a melhor Saúde Mental do Brasil. Vocês têm os melhores recursos”.Queremos trabalhar em Campinas”. Isto não nos coloca numa posição cômoda. Precisamos de reconhecimento, de políticas intersetoriais, que defina diretrizes políticas e financeiras para a execução de ações,  que fortaleçam os espaços de convivência no município. Precisamos ir além!

Dê a sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

 

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One thought on “Portal das Artes

  1. teresa jesus martins on said:

    Penso que um aprendizado significativo na experimentação dos Centros de Convivência é o abrir-se para as potencialidades existentes nos territórios, para as possíveis contribuições das pessoas/coletivos. A Saúde Coletiva sempre olhou para os territórios identificando “áreas de risco”, “populações de risco”, “problemas” ; levar em conta também as potencialidades, as riquezas que cada um traz, com seus saberes/habilidades/possibilidades, adotando a concepção de vulnerabilidades, pode provocar movimentos transformadores da realidade cotidiana. E é interesante que este aprendizado continue a contagiar toda a rede de serviços de saúde.

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