Carta da Saúde

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“Papel do distrito implica em produzir coisas, inventar, criar, experimentar e produzir a insurgência do protagonismo das pessoas…”

“Papel do distrito implica em produzir coisas, inventar, criar, experimentar e produzir a insurgência do protagonismo das pessoas…”

O Distrito de Saúde Norte de Campinas tem novo coordenador. É o Fábio BH, que já atuou no SUS Campinas e agora está de volta após acumular experiência em outras instituições e também em outras cidades.

“Vejamos as dimensões das rodas: discutir os casos em atenção pela equipe; discutir a gestão dos serviços; organização do trabalho, do papel, da atribuição do Apoio, do Apoiador, desse ator que está aí e que a gente acha que é importante nessa relação com os serviços; espaços redefinem os objetivos, os seus modos de trabalho, a sua forma de produzir. Espaços do nível distrital com o nível local e ao mesmo tempo entender que ele vai pautar diretrizes do projeto institucional da Secretaria de Saúde no âmbito municipal”, disse Fábio. A seguir, a entrevista na íntegra. Confira:

Carta da Saúde – Quais os principais desafios à gestão do Distrito Norte?

Fábio BH Alves: Penso que uma temática é localizar o espaço território do Distrito Norte e sua complexidade, reconhecendo nosso papel produtivo do setor saúde e a sua produção no campo da política. Um espaço que circunscreve ou agrega muitos equipamentos sociais do campo da saúde e de outros setores produtivos com suas lógicas. Lógicas que produzem seus movimentos e determinações do modo de viver das pessoas no nosso Distrito. Consideramos um desafio, então, não perder esta dimensão e a gente construir a capacidade de articular estas questões, sem perder o nosso papel.

Especificamente, podemos apontar que a Organização dos Serviços,  a Gestão e o Trabalho em Saúde, sempre serão parte importante da agenda de qualquer sujeito que se preste a ser dirigente. Há objetos importantes neste tema que nos chama para entender conceitos ligados à compreensão de Modelo Assistencial. Podemos pensar que a partir daí as intervenções se tornam mais capazes de produzir mudanças, produzir interlocução mais qualificada para o debate com os trabalhadores e usuários, no espaços tecnológicos das redes de serviços.

Estamos abordando estas complexas e, muitas vezes, adversas questões para pensar com mais detalhamento o desenho do Distrito Sanitário, o nosso espaço de gestão e o seu papel institucional. Podemos considerar que há outro desafio aí. Ou seja, como podemos compreender a organização estratégica e cotidiana do papel técnico-político do Distrito. Pedagógica e estrategicamente estou considerando que o Distrito Sanitário em Campinas tem os seguintes Núcleos de Saberes: Gestão e Planejamento; Trabalho e Organização da Clínica; Vigilância. Nesta perspectiva, estamos abrindo um debate central com o grupo do nosso Distrito que é aprofundar o papel da implementação de políticas e programas. Encaramos que este papel implica em produzir coisas, inventar, criar, experimentar e produzir a insurgência do protagonismo das pessoas, da sociedade civil, dos trabalhadores, dos usuários e dirigentes, num plano que possa atravessar e contribuir com a Secretaria de Saúde, no nível central, mas também na relação com os serviços. Podemos, no sentido institucionalista, produzir novas políticas, novas formas de pensar e de agir desse nível de gestão para a Política Pública. Não estamos em qualquer lugar, estamos num Distrito de Campinas.

Eu fico imaginando que estabelecer essa capacidade de intervenção, esta capacidade de análise, esta capacidade de articulação do Distrito enquanto nível estratégico é intermediar junto aos Serviços os respectivos territórios. Juntar este debate do papel da Gestão e da Organização do trabalho e da Vigilância, talvez sejam  grandes desafios, no sentido de articular essa tendência de anti-fragmentação e pensar este processo de maneira mais integrados.

Carta: Neste território, para além da Rede da Secretaria da Saúde de Campinas, há também um complexo que está na Unicamp, entre outros…

Fábio: Pensamos que a Unicamp é por demais importante em se pensando de maneira geral, mas também no campo da saúde. Produz conhecimentos com a sua complexidade de poderes e atores, interesses e também a sua multi-institucionalidade na formação-ensino, pesquisa e assistência. Como toda instituição, esta produz muitas coisas boas e , de alguma forma, tem lá suas contradições e paradoxos. Devemos aprofundar o papel do HC-Unicamp e a sua relação com o Sistema de Saúde Macro-Regional e especialmente com o município de Campinas. Não podemos esquecer do seu papel, do complexo da saúde (HC, Caism, Hemocentro, Gastrocentro, entre outros) e as suas atribuições. Penso que há acúmulos e consciência, que de alguma forma podemos construir juntos, redefinir juntos, buscar o papel deste hospital nesse território, a sua contribuição para a formação e a atenção em saúde. Poderia fazer uma alusão figurativa que o hospital é o Coração do Dragão, uma imagem que traduz o hospital como um lugar que reproduz o modelo biomédico hospitalocêntrico, médico centrado, especializante e procedimental, portanto, ele é um lugar a ser deflagrado, produzindo suas transformações. Estaremos explorando estas questões com arranjos e metodologia para atenção especializada e hospitalar. Há algumas iniciativas progressistas e diálogos interessantes a este respeito com o SUS Municipal.

Carta – Quais os principais pontos a serem priorizados?

Fábio: Acho que pontos que a gente deveria discutir, em primeiro lugar, é capacidade de produzir os espaços pedagógicos da Gestão e de como  potencializar as nossas  interlocuções, seja com os usuários do Sistema de Saúde, seja com os Trabalhadores, seja com a Sociedade Civil. Este interesse advém do olhar que estamos querendo dar para os processo de Gestão Participativa, Co-Gestão, Produção Coletiva. Não podemos nos esquecer desta riqueza, destes espaços coletivos. Podemos reconhecer que eles existem, mas podem estar pouco explorados, burocratizados, estruturados como espaços de transmissão de informação. São espaços que produzem o devir dos coletivos, suas capacidades de intervir e pensar o mundo complexo à nossa volta.

Cabe ao Distrito resgatar, redefinir ou pelo menos potencializar estes espaços. São espaços que produzem a democracia, recompõem os poderes, reconstróem  a agenda, a comunicação e produção de conhecimento, de criação de novas intervenções.

Os dirigentes devem ter capacidade de operar estes espaços. Portanto, são competências pedagógicas para “operar” coletivos. São os espaços da roda. Estas rodas são o lugar da organização da Equipe, da Reunião de Equipe, dos Colegiados e Conselhos. Ou seja, não são espaços mortos, são espaços vivos. É um ponto que a gente vai precisar discutir. Vejamos as dimensões das rodas: discutir os casos em atenção pela equipe; discutir a gestão dos serviços; organização do trabalho, do papel, da atribuição do Apoio, do Apoiador, desse ator que está aí e que a gente acha que é importante nessa relação com os serviços; espaços redefinem os objetivos, os seus modos de trabalho, a sua forma de produzir. Espaços do nível Distrital com o nível Local e ao mesmo tempo entender que ele vai pautar diretrizes do projeto institucional da Secretaria de Saúde no âmbito municipal.

Outro ponto importante, bastante importante, é a questão do significado e a grandeza que tem a Política Pública do SUS. É a questão de resgatar e de fazer uma defesa da Política Pública, do Sistema de Saúde Público. É uma agenda sempre posta, este debate já está colocado. Estou propondo não esquecer, e que possamos produzir formas de militância, formas de intervenção, formas de agregação dos sujeitos e atores sociais em torno da Política Pública. Como é que a gente consegue, na prática, pactuar a política com tantos interesses colocados no campo da saúde. Eu acho que esses pontos, para mim, são fundamentais. Estou imaginando, pessoalmente, produzir movimentos da micro-política, onde acontece de fato a produção e onde acontece a implementação do SUS, sem perder a dimensão com as questões macro. As questões ideológicas, as questões que atravessam o interesse do Estado brasileiro são também as questões que atravessam o cotidiano do fazer saúde. São as questões das grandes indústrias farmacêuticas. Podemos discutir, ainda é uma questão presente, a inserção dos profissionais, das categorias.Outros temas estão aí rondando o cotidiano, como: superar esta relação, única e exclusiva, às vezes, que é de representar os interesses das categorias, e são, muitas vezes, relações muito corporativas. Acho que devemos produzir um encontro mais multiprofissional, estimular mais o trabalho em equipe, a relação democrática da horizontalização dos poderes, acho que esses temas a serem priorizados ocupam bastante energia e a nossa cognição.

Carta – Qual a metodologia da gestão?

Fábio: Quanto ao método de gestão, estou entusiasmado porque Campinas exporta experiências importantes, experiências de pessoas que estão no dia a dia, na peleja. A peleja é o nosso lugar de encontro para pensar o modelo de gestão. Quando resgatamos essa lógica do potencial pedagógico nos espaços coletivos, afirmamos, ao mesmo tempo, a importância do método de fortalecer os espaços coletivos. O método precisa produzir pessoas, trabalhadores, gestores, usuários, que possam, de alguma forma, operar esses espaços coletivos. Pode ser fundamental. São espaço de produção de consensos, de articular e revelar alguns interesses, espaços de muita criação, de muitas experiências positivas. Não sei se é exatamente em métodos que estamos falando. Poderíamos dizer que é a estética da lógica participativa, numa lógica de um sistema de Gestão mais participativa, isso tem me interessado muito. Agora, o método-estética de gestão pressupõe definir um certo projeto institucional. Eu sinto que o Coletivo de Apoiadores e de Coordenadores de Serviços do Distrito vão apostar nesse processo estético, a sua metodologia de gestão preocupará em sintetizar uma agenda que vire o projeto de intervenção distrital articulado e integrador. A bandeira está fincada: em qual território de compreensão, qual o território de significação da nossa atuação? É o que nós colocamos para o Distrito: a definição de um projeto. Apontaria que o Distrito tem que se situar com um projeto também, sempre respeitando, sempre construindo com a Secretaria de Saúde. Ou seja: Respeitar esse lugar macro da Secretaria Municipal de Saúde mas ao mesmo tempo olhar para a Rede, a Atenção Básica, a Atenção Secundária, fazer a síntese e constituir um conjunto de ofertas, um conjunto de questões, um conjunto de processos, que pode dar a cara de um projeto. Isso que produz a noção de grupalidade dentro de um Distrito de Saúde, produz o nosso lugar comum de intervenção, produz capacidade trabalhar em equipe, junto no Distrito. Produz a capacidade de criar contratos, compromissos com a equipe de gestão do Distrito, produz também uma situação em que a gente possa ser claro com os Coordenadores de Unidades. O apontamento da necessidade de um projeto, não é no sentido de um projeto totalizante, mas um projeto que inclua outros projetos, um traçado aberto. Então, neste sentido, também está colocada a capacidade dos Serviços Locais também terem seus projetos singulares, reconhecendo a sua cultura, a sua especificidade, a política local, a questão tecnológica deste espaço na Saúde, a capacidade de produzir a co-gestão, a lógica de fazer acontecer aquilo que seja importante na Política Pública de Saúde.

Carta – Nós, do Núcleo de Comunicação, gostaríamos que você nos contasse um pouco da sua trajetória no SUS e também que nos contasse sobre sua formação.

Fábio: É claro que os aspectos abordados em minhas respostas anteriores têm muito a ver com a minha formação. Eu sou médico sanitarista com especialização em Saúde Pública e mestrado em Saúde Coletiva na Unicamp. Este conjunto de reflexão é parte da produção, aprendido e refletido no Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade  de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Considero que tenho uma formação importante no SUS de Campinas, que o conhecimento da Saúde Coletiva e os saberes dos sanitaristas e suas práticas tem a ver com o SUS Campinas. Eu entrei no SUS Campinas em 2000, atuei nos Centros de Saúde São Marcos e Santa Mônica, em seguida fui para o apoio institucional da Sudoeste. Me tornei diretor de Distrito de Saúde, entre 2003 e 2004, depois eu fui para a Unicamp, trabalhei em um projeto que a organização do modelo de gestão e atenção do HC da Unicamp, um projeto interessantíssimo com o professor Gastão Wagner, do qual resultou a pesquisa de Mestrado. Discutimos e organizamos Unidades Produtivas, Contratos de Gestão e outros arranjos no hospital, no momento da Superintendência do professor Zeferino. Tenho participado como professor da Disciplina Ações de Saúde Pública para o primeiro ano de graduação da Medicina Unicamp e da supervisão/tutoria dos residentes de Medicina Preventiva, o que tem sido um aprendizado. Participei de muitos processos interessantes em alguns municípios como Sumaré, Nova Odessa, Artur Nogueira, Diadema, Vale do Ribeira e Mauá. Vivenciei uma bela experiência com o movimento popular, trabalhadores e com um grupo dirigente, muito potente, como secretário municipal de saúde em Santa Bárbara d´Oeste. Participei da atual Diretoria do Cosems-SP. Agora  aceitei  o convite do Saraiva, Adail e Roberto para voltar, no Distrito Norte. E eu assumo este papel com muita honra e com muito prazer.

Carta – Sabemos que você tem experiência no trato da comunicação no dia a dia do trabalho em Saúde. Você poderia nos contar como foi?

Fábio: Passei por uma experiência recente que permitiu entender o quanto a comunicação pode contribuir para o diálogo, para a interlocução da política pública da saúde com o conjunto da sociedade civil organizada, com os trabalhadores da Rede e com os usuários do Sistema Único de Saúde, para além do próprio Sistema Público, explicitando a sua potência, explicitando a sua radicalidade enquanto modelo de atenção, explicitando a política pública como um todo. É através da comunicação que se estabelece este diálogo permanente diante da disputa, que de alguma forma estamos vivendo na nossa sociedade para discutir, militar, apoiar e construir normatividades, construir o movimento da política pública. A comunicação tem de ser entendida como um instrumento muito forte de diálogo com nossos êxitos, nossas ações importantes, com trabalhadores e usuários. Eu estou dizendo do papel afirmativo da comunicação. E quando digo isso, não quero dizer que a comunicação deve parar de problematizar as questões que nos permeiam no cotidiano e que são desafios que precisamos superar. A experiência, enquanto Secretário da Saúde, em outro município, era da comunicação para projetar um conjunto de propósitos para aquele município e num conjunto com vários espaços, legislativos, executivos, da sociedade civil, e principalmente para dialogar com os trabalhadores. Utilizamos a ideia de que o dirigente é um permanente instrumento da comunicação, com a bela noção do agir comunicativo de Habermas. A ideia era discutir um projeto que fosse despersonalizado, no sentido de que ele fosse “pluri-personalizado” que fosse dado um rosto de vários sujeitos sociais e a sua práxis, de sujeitos que assumiam o encargo da militância, dos vários dirigentes e também dos trabalhadores, e também de usuários organizados, em torno da proposição de construção de um projeto de SUS para a cidade e que seria implementado com certa radicalidade como um princípio de Política de Estado, que é a luta pela implementação da política de saúde pública. Esta é a comunicação no sentido de movimento, de participação, de contribuição, de atravessar e estar nos espaços intersetoriais. Enfim, aquela comunicação que também consegue dialogar para dentro e para fora, através dos diferentes atores, chegar àquela pessoa que não conhece os êxitos e a grandeza do SUS.

Dê a sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

 

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5 thoughts on ““Papel do distrito implica em produzir coisas, inventar, criar, experimentar e produzir a insurgência do protagonismo das pessoas…”

  1. Fabio, seja benvindo. A comissão de Urgência está ao seu dispor para juntos buscarmos soluções e dividirmos as alegrias.
    Marilene

  2. Alexandra Barbosa on said:

    Fabio, bons ventos o trazem!
    Muito bom poder contar com seus saberes.
    Estou ao seu dispor.Trabalho não falta.
    Entao, muita força amigo!

    Alexandra.

  3. Alexandra e Marilene.
    Valeu pela solidariedade
    Saudações e até a nossa vitória

  4. Rubens Bedrikow on said:

    Caro Fábio, sua chegada trouxe muita esperança para todos aqueles que, como você, gostam de atuar no SUS-Campinas. Contamos com sua experiência e saber que, como vimos na entrevista, seguem “engordando”. Desejo muito sucesso diante desse novo desafio. E o mais importante: saiba que você não estará só.
    Abraços,
    Rubens

  5. Caro amigo Rubens. Muitíssimo obrigado pelas suas considerações.
    Já sei do mais importante: sei que não estarei só.
    Saudações e até a nosso Vitória.

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