Carta da Saúde

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Ricardo Teixeira: Um Fórum como este é a constituição imediata de uma uma “zona autônoma temporária”

Ricardo Teixeira, da Política Nacional de Humanização

Nos dias 15, 16 e 17 de setembro, trabalhadores, gestores e parceiros do SUS Campinas participaram do II Fórum Municipal de Humanização do SUS Campinas. Nesta edição a “Carta da Saúde” traz entrevista com o consultor da Política Nacional de Humanização, Ricardo Teixeira. Confira:

Carta da Saúde – Qual é a importância da realização de um fórum como este para a Política Nacional de Humanização?

Ricardo Teixeira: Vamos entender o Fórum fundamentalmente como um espaço de encontro. De trocas. Eu acho que a importância disso para a Política de Humanização, tal como nós a concebemos, é intrínseca. Nós temos o hábito de pensar esses encontros e eventos como algo que é veículo para outra coisa. Eu acho que um Fórum, nessa perspectiva da Política de Humanização, ele é o fim. Claro, aqui se discutem coisas que vão se desdobrar em outros espaços, em outros momentos. Mas eu acho importante a gente começar a pensar que aquilo que a gente chama de “meio” faz parte dos “fins”. O próprio termo fórum traz isso. Eu vou citar o nosso companheiro Edu Passos, um dos nossos grandes mentores da Política de Humanização: A Política de Humanização, ela se quer fórum. Como ele costuma dizer: ‘Tô fórum’. Fazer fórum, claro, tem essa formalidade de ser trampolim para outras articulações, mas eu vou insistir nessa idéia: se ele pode ser visto como meio para outras ações, ele também é fim em si mesmo. E neste sentido eu quero insistir nessa frase: Os meios fazem parte dos fins. O “como fazer” é tão importante quanto “o que fazer”.

Carta – O que você está achando deste fórum?

Ricardo: Eu cheguei nele hoje, que é o último dia, e estou sob o efeito desta primeira manhã, em que eu estive auscultando os trabalhos dentro de uma proposta (que veio com este convite gentil que me foi feito de ser um comentador desses trabalhos) e eu confesso que, até este momento, ainda estou absolutamente impactado com o que eu pude assistir aqui. A gente é convocado para esse tipo de espaço, muitas vezes para fazer alguma intervenção, trazer conceitos, fazer as pessoas pensarem coisas que possam se desdobrar, instigar a criatividade e a invenção no cotidiano do trabalho, e o que eu vejo, chegando aqui, é muita coisa já realizada. Eu estava conversando com alguns colegas e disse que tive a impressão de que, nesta manhã, eu ouvi quase tudo que se pode dizer sobre redes. O tema deste encontro é a construção de Redes Solidárias. Não me ocorre nada que eu poderia dizer sobre redes que eu ainda não tenha ouvido, seja através de um relato de experiência, seja através das reflexões… É grande o nível de elaboração que as pessoas têm sobre o que estão fazendo.  Claro, alguns podem dizer que o que se tem aqui é uma seleção, uma mostra, mas eu acho que o que se tem aqui já possui uma potência suficiente de contágio. Eu venho de uma cidade que atravessa um período muito árido. São Paulo, capital, pertinho daqui…

Carta – São Paulo teve um período sem SUS?

Ricardo: E eu diria que ainda vivemos um período anti-SUS. Tão perto e tão longe! A Política Nacional de Humanização me propicia a felicidade de me manter acreditando que o SUS é possível porque me leva a conhecer muitas coisas que têm sido feitas em todo o país. Se eu permanecesse assistindo e contemplando o SUS do lugar em que eu trabalho hoje, que é a cidade de São Paulo, eu estaria bastante deprimido com a situação, com a ausência de Redes. É claro que existe muito para se fazer também em Campinas e a gente está ouvindo muito isso por aqui. Todo mundo sabe que a cidade de São Paulo passa por um processo de privatização aprofundado…

Carta – Houve um período de substituição, pelo Plano de Atendimento à Saúde, o PAS, mas num outro momento houve uma tentativa de resgate?

Ricardo: Houve um resgate da rede pelo setor público após a catástrofe do PAS, mas hoje tem um outro movimento que é o da transferência da gestão para organizações privadas. Temos uma fragmentação muito grande porque a cidade foi loteada por essas organizações que não conversam entre si. Eu estou vivendo atualmente a experiência de levar alunos para dentro de uma unidade que é metade UBS e metade AMA (uma unidade de pronto-atendimento), e os profissionais da equipe da Unidade Básica de Saúde são contratados por uma organização social, os profissionais da AMA são contratados por outra organização social, convivem dentro do mesmo prédio e não há nenhum tipo de relacionamento. Isso é um bom indicador de por onde anda, em que pé que anda a discussão de rede, de co-produção, de co-responsabilização, de co-gestão. E aí eu me pergunto se essa diferença com relação a Campinas não se deve ao fato de eu estar em um local onde o SUS permanece majoritariamente sob controle da administração pública…

Carta – Você vê isso mais como resistência ou aqui é um ninho, com ovos e coisas para nascer?

Ricardo: Tem ovo e já tem pintinho cantando. Já tem franguinho abrindo as asas… (risos) Isso tudo num ótimo sentido! A minha avaliação é, sobretudo, pessoal, pelo que tem me afetado. De fato, eu volto para São Paulo energizado, com minha potência elevada, por descobrir todo esse vigor, todo esse dinamismo, toda essa massa crítica aqui presente e com certeza isso tem expressão. As pessoas que lerem esta nossa conversa podem até dizer que a realidade está muito longe disso, mas isso é uma construção. E eu não tenho dúvida de que em Campinas, pelo que vejo agora, a gente identifica fundações sólidas para essa produção.

Carta: Eu gostaria que você explicasse melhor como o fórum é o “fim”?

Ricardo: O nosso tema, hoje, são as Redes. E, quando se fala em rede, somos remetidos a uma idéia muito física ou muito estável, mais perene: ‘Vamos construir a rede´, como se fosse um equipamento material que a gente pudesse construir com conexões de cabos e wireless. E não é isso. O movimento da Rede é um movimento bastante imaterial. Ele pode até depender de alguns substratos materiais, sem dúvida. Da mesma forma que as nossas interações dependem do meu aparelho fonador, das ondas sonoras que são transmitidas. Tudo isso está impregnado de materialidade, mas eu diria que a essência daquilo que a gente chama de rede e que a gente quer construir é fundamentalmente imaterial e obedece a uma dinâmica onde se compõem “zonas de autonomia” que se formam aqui e se fazem acolá. Eu vou usar um termo que vem do campo anarquista, de uma reflexão política sobre as Redes: eu acho que um Fórum como este é a constituição imediata de uma TAZ (Temporary Autonomous Zone, nome de um livro de Hakim Bey). É uma “zona autônoma temporária”. A gente constitui uma zona autônoma e a constituição desta zona autônoma, de trocas, produz efeitos que são tão sensíveis que as pessoas expressam isso a cada fala. Ouvimos isso várias vezes esta manhã: “Eu estou muito feliz de estar aqui. Os meus olhos brilham, a minha pele arrepia”. Este é fundamentalmente o papel que o Fórum cumpriu em si. É uma “zona autônoma temporária” e privilegiada. Temporária porque ela se forma e ela se desfaz. Mas isso também nos permite ver que o tempo todo as Redes também se constituem nessas formações de zonas autônomas temporárias e que são zonas de alta potência. Zonas de atualização de práticas de criação.

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