Carta da Saúde

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Mário Gatti articula redes de cuidados voltada para desospitalização

Trabalhadores em Enfermaria do Mário Gatti

O Hospital Municipal Doutor Mário Gatti levou ao Segundo Fórum Municipal de Humanização, semana passada, sua experiência de desospitalização articulada a uma rede de cuidados dentro e fora do serviço. Quem fala sobre esta experiência da área hospitalar é a Ana Cláudia Viel Mastrandrea, fisioterapeuta que coordena a Enfermaria de Clínica Médica do Mário Gatti.

Nesta entrevista ela explica o trabalho que envolve um conjunto de práticas com foco no Acolhimento e desencadeia na construção de uma malha de pessoas, serviços e instituições funcionando como uma rede de desospitalização. “Um põe um bracinho, outro põe outro bracinho e aquilo vai formando uma teia. É uma teia mesmo. Um emaranhado de pessoas, de laços, de instituições que nós conseguimos envolver para conseguir desospitalizar”. Confira:

Carta da Saúde – Qual foi a experiência da área hospitalar levada ao Fórum de Humanização?

Ana Cláudia: Nós levamos a experiência do acolhimento com classificação de risco dentro de uma enfermaria de um hospital público municipal de Campinas, que é diferente do acolhimento de porta. No acolhimento de porta o usuário chega e é recebido. No da Enfermaria não. Ele já veio de alguma unidade. Ou ele vem de uma unidade de internação, ou ele vem de um Pronto Socorro, ou de uma UTI Adulto. Nós avaliamos o paciente antes do encaminhamento dele para Enfermaria, identificamos nele quais as necessidades, que tipo de cuidado é preciso. Por isso fazer acolhimento é muito mais do que tratar bem a pessoa. Acolher é atender à necessidade do usuário. Não é só tratar bem e ser educado.  Juntamente nós classificamos o risco. Quanto mais grave o estado do paciente, por exemplo, mais próximo do posto de enfermagem. Este é um tipo de classificação com que a gente opera. Isto sempre respeitando os nossos limites de estrutura física. É esse momento do acolhimento e da classificação do risco que nos permite enxergar todo o contexto, de conhecer as necessidades desse paciente. Quando um paciente chega à Enfermaria ele já é recebido por uma equipe multiprofissional. Essa equipe já sabe alguma coisa dele. Conversa com os familiares, com os acompanhantes que estiverem junto. Nós mostramos qual é a nossa proposta, qual é a nossa missão, quais as regras do Serviço, quais os nossos deveres, as normas que existem para todos os Serviços de Saúde, o direitos que este usuário tem de um acompanhante, pois é muito importante ter um acompanhante sempre junto, é importante o acompanhante durante a internação. Nós verificamos qual a disponibilidade da família, das pessoas mais próximas do usuário para acompanhá-lo durante a internação. Da relação de confiança e segurança entre familiares e equipe é que conseguimos construir o momento da “desospitalização”. O momento da alta é construído a partir do momento que ele chega. Pensando na alta, a família é treinada e orientada como deve. A instituição é orientada, quando é um paciente institucionalizado. Toda a equipe multiprofissional da enfermaria se desdobra em cima disso.  O Said (Serviço de Atendimento e Internação Domiciliar) é chamado para participar, quando é o caso. Os Centros de Saúde são referenciados, quando da alta desta pessoa. Então os Centros de Saúde relacionados recebem o nosso resumo de alta. Eles sabem que aquele paciente, daquela área, esteve internado por determinados motivos. Quando é uma alta em que nós precisamos, por exemplo, de uma medicação monitorada para este paciente, fazemos este link com o Centro de Saúde do território daquela pessoa, telefonamos para o enfermeiro, etc… Então a pessoa já sai com alta toda “casada”, tudo acertado.

Carta – Esta é uma Rede de desospitalização? E quais os Serviços que participam dela junto do Mário Gatti?

Ana Cláudia: Eu não consigo enxergar outro nome para isso que não seja Rede. Na verdade é isso o que acontece. Um põe um bracinho, outro põe outro bracinho e aquilo vai formando uma teia. É uma teia mesmo. Um emaranhado de pessoas, de laços, de instituições que nós conseguimos envolver para conseguir desospitalizar. Os nossos maiores parceiros são os Saids, principalmente do Distrito Sul, porque a nossa demanda é maior desse território, de pacientes que moram na região do Distrito Sul, mas todos os Saids do município participam quando precisam. Os Centros de Saúde são parceiros importantíssimos. São os nossos parceiros! As instituições também são, como por exemplo a Toca de Assis, dentre outras que também colaboram. E o Hospital também tem voluntários que nos ajudam na construção dessa Rede. E nós vamos sempre trazendo o máximo de pessoas possível para o que a gente precisa. Se é um jovem, menor de 18 anos, em situação de vulnerabilidade, que cometeu ato infracional, temos de buscar também a participação da Fundação Casa para resolver os problemas dele. Então a gente procura essa aproximação mesmo de todos os envolvidos.

Carta da Saúde – Qual impacto que você percebe?

Ana Cláudia: Eu percebo principalmente o menor sofrimento, tanto da equipe, quanto dos familiares e pacientes por conta da desospitalização. Essa angústia e esse fantasma que rondam… As pessoas chegam aqui com um parente que entra no Hospital andando e sai dependente, precisando de banho, precisando de ajuda. Aí a pessoa pensa: ‘Como que eu faço agora?’. Então durante a internação dos nossos usuários este trabalho desmistifica isso, porque a gente se aproxima da família, dos parceiros que a gente identifica, que são com eles que aquela pessoa pode contar. Assim a desospitalização é menos traumática. Acontece no prazo correto. Evita que o paciente fique internado desnecessariamente, correndo riscos de infecção, entre outras coisas. Nós temos percebido que as reinternações são menos frequentes. Ninguém trabalha sozinho. Quando a gente busca parceria a gente sempre encontra algo melhor. O foco é sempre o usuário. Atender às necessidades dele. Aquilo que, muitas vezes para nós parece uma coisa boba, de graça, para o usuário não é. É justamente o que ele precisa naquele momento. E sozinho ninguém faz nada. Não adianta um atendimento hospitalar de excelência, se não existe uma Rede de Ajuda lá fora. Ou o contrário, que é ter uma Rede de Ajuda enorme e um atendimento hospitalar ruim. Sem parceria não tem como.

Dê a sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

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One thought on “Mário Gatti articula redes de cuidados voltada para desospitalização

  1. Marco Antonio da C F Junior on said:

    Pessoal,
    É muito bacana perceber que em nosso país existem pessoas que se preocupam com o próximo, mesmo em uma sociedade onde a individualidade muitas vezes não dá espaço para o altruísmo, e ao p0esquisar redes de ajuda hospitalar cheguie nessa matéria e fiquei de verdade envolvido em trazer esse projeto para o Rio de Janeiro, tentar pelo menos implantar algo que possa ajudar as pessoas que vivem na cidade maravilhosa que possui o setor da saúde nada maravilhoso, e tento a minha mãe hoje internada, passando algumas noites no hospital como acompanhante, percebi que nem sempre o problema é de infra-estrutura mas sim de humanização dos profissionais e médicos que atuam na rede de saúde.
    Considerem meu comentário como um desabafo e vendo como as coisas funcionam não consigo ficar paradao e nas noites que lá estive procurei ajudar chamando profissionais em momentos de aflição dos pacientes, conseguindo suporte para pendurar o soro, com uma palavra amiga e de solidariedade, ou seja, sendo HUMANO!
    Tenho muita vontade em montar um projeto nesse sentido, uma rede de ajuda e apoio para pessoas que não possuem acompanhantes e com a rede crescendo , quem sabe revolucionar o atendimento nos hospitais do Rio de Janeiro.

    Abraço e parabéns pela iniciativa

    Marco Antonio da Conceição Fonseca JUnior

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