Carta da Saúde

Notícias do SUS Campinas

Adail Rollo, novo diretor da Saúde, fala sobre a agenda prioritária do Departamento de Saúde, metodologia de trabalho e os grandes desafios para a implementação das políticas de saúde no país e em Campinas

Adail de Almeida Rollo é o novo Diretor do Departamento de Saúde da Secretaria. Ele é médico sanitarista, com especialização em Saúde Pública pela Unicamp, foi Diretor de Articulação de Redes de Atenção à Saúde, do Ministério da Saúde, Secretário Municipal de Saúde em Sumaré e também diretor- presidente do Hospital Municipal Doutor Mário Gatti.

Na tarde de sexta-feira, Adail concedeu um espaço de sua agenda à reportagem da “Carta da Saúde”. Na entrevista, apontou o subfinanciamento do SUS e a política de recursos humanos como importantes desafios atuais para a consolidação do SUS nacional e municipal. Confira a entrevista na íntegra:

Carta da Saúde: Quais os maiores desafios da Política de Saúde?

Adail Rollo: Há desafios que estão no plano macro. Um grande desafio que está no plano macro é o subfinanciamento. Hoje, o que temos de fato, para o financiamento do SUS, não dá conta de todas as necessidades da população.  Com isso a gente precisa ter uma eficácia no uso dos recursos e uma gestão muito eficiente para definir prioridades, aquilo que temos condição de enfrentar e o que determina o maior sofrimento da população.

O subfinanciamento, no Estado de São Paulo, se agrava, porque não temos uma parceria mais efetiva com o Governo do Estado. Basicamente, todo o financiamento da Política Municipal de Saúde é de responsabilidade do município, que gasta quase que por volta de 30% do orçamento municipal em Saúde, e do Governo Federal. Então, temos aí uma proporção do total de gastos, em que quase setenta por cento são bancados pelo Tesouro Municipal e trinta por cento pelo nível federal. A contrapartida Estadual é muito pequena, esse é um grande problema. Uma maior participação do Governo do Estado no financiamento da Política de Saúde Mental, da Política de Atenção Básica, da Política de Urgência e Emergência, é fundamental. Isso é diferente em outros estados, em que ocorre essa parceria estabelecida como na Bahia, Minas Gerais, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Sergipe, Rio de Janeiro, que têm financiamento solidário das políticas estruturantes do SUS que  citei.

Outro desafio é o da política de pessoal do SUS. O SUS, hoje, é uma política em expansão, está expandido oferta de ações na área de Cuidado Primário, na Área de Atenção Neonatal, na Área de Atenção aos Cânceres, na Área de Atenção da Urgência e Emergência, na área de Atenção Hospitalar, e nós não temos um processo de formação que garanta a quantidade de profissionais, principalmente médicos, para dar conta dessa oferta nova de serviços. Além disso, tem a competição com os planos de saúde, que também empregam os profissionais. Soma se a isto a  ausência de uma política de pessoal adequada para os profissionais do SUS, plano de carreira, programas de valorização dos profissionais, formação de especialistas em número adequado para as políticas estruturantes. Falta médico de Saúde da Família, falta psiquiatra, falta pediatra, falta socorrista, falta neonatologista, muitas vezes, temos a política estabelecida e não conseguimos preencher os quadros com os médicos, nas suas especialidades. Este é um problema no Brasil que já se reflete em Campinas.  Aqui falta médico de família na Rede, falta clínico geral, falta pediatra, nós  não conseguimos cumprir todas as escalas de médicos das Unidades Básicas e dos Pronto-Atendimentos. Outra questão, que está mais ao nosso nível, é o modelo de atenção. Como avançar na abordagem do processo saúde-doença, realizada pelos  profissionais de saúde? Processo saúde – doença considerado de uma forma mais ampla. Ao trabalhar com a dimensão ampliada do cuidado em saúde, não dá para considerar só as três questões: Qual é a doença? Como confirmar e como tratar? É importante colocar outras perguntas: Porque adoeceu? O que o paciente tem que saber e fazer para ser sujeito de seu processo de tratamento/reabilitação? O que  pode ser feito para que outros não tenham esse agravo? Enfim, não podemos ser reducionistas no processo de abordagem das doenças, bem como, não dá para não trabalhar em rede. Saúde é complementaridade, é relação de interdependência entre os vários saberes, entre as várias práticas. Assim, o trabalho do agente comunitário, do enfermeiro, do médico, do psicólogo, do farmacêutico, do nutricionista, tem que ser um trabalho solidário, que agregue qualidade e soma de saberes e práticas para ter melhor resultado. Temos muito que avançar no sentido da nossa atuação em equipe e em rede!

Carta: Qual é a agenda prioritária do Departamento de Saúde?

Adail: É a agenda prioritária da Secretaria Municipal de Saúde. O Departamento de Saúde já tem um planejamento feito no início do Governo, o Planejamento Plurianual, que é um planejamento de quatro anos, que está sendo implantado e todo ano tem sua programação. São prioridades já definidas e aprovadas pelo Conselho Municipal de Saúde que vão ser  discutidas, reformuladas na Conferência Municipal que vai ocorrer em março do ano que vem. O foco é a redução da mortalidade materna e infantil, qualificação da atenção às doenças crônicas, principalmente as cardiovasculares e os cânceres, neste caso, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado para evitar mortes precoces. A prioridade é a expansão da Rede de Urgência e Emergência para que todo cidadão, num momento de urgência aguda, tenha uma atenção pronta e, a expansão das Unidades Básicas, de forma que todo cidadão, toda família, tenha uma Equipe de Saúde da Família que cuide dela, que resolva seus problemas no local mais próximo da moradia. A outra prioridade é a adequação da oferta de Especialidades com utilização adequada das mesmas, resolvendo o que é possível resolver na Atenção Primária e encaminhando para o especialista o que de fato precisa de especialista. Outra prioridade é a expansão de leitos. Ainda temos um déficit de leitos. Hoje nós temos a condição de rapidamente expandir mais 100 leitos na UNICAMP, já temos capacidade instalada, falta contratação de pessoal. Está havendo uma articulação junto ao Estado para ampliar leitos gerais e leitos de Terapia Intensiva na Unicamp e também existe a possibilidade de dobrarmos rapidamente o número de leitos do Hospital Ouro Verde. Hoje ele funciona com cerca de 120 leitos, a proposta é que ele passe rapidamente a funcionar com duzentos, 210 leitos, para um aumento da oferta. A outra prioridade é o idoso, a Atenção ao Idoso. A população está envelhecendo. Campinas já tem uma porcentagem de pacientes na Terceira Idade que é significativa. A idéia é ampliar os Centros de Referência de Atenção ao Idoso (CRI), e criar Casas de Cuidado, também para idosos, que têm dependência para as atividades básicas de vida. Estamos em parceria com a Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência e Inclusão Social para as Casas de Cuidado. E outra prioridade é o morador de rua. Principalmente usuários de drogas e álcool, que precisam de uma abordagem singular. É uma população que tem que ser assumida, uma população excluída de todas as ofertas de proteção social. Tem um projeto, que é um projeto municipal, prioritário, de uma abordagem, de atenção e de cuidado, para que a gente consiga garantir acesso a toda tecnologia que a Humanidade tem desenvolvido para melhorar a qualidade de vida e reconstruir os projetos de vida. Para que as pessoas que hoje não têm uma vida digna possam ter condições de vida, cuidados e redes sócio-afetivas adequadas.

Carta: Qual a proposta, a metodologia de trabalho e qual o Colegiado Gestor?

Adail: A Secretaria Municipal de Saúde tem uma tradição já de mais de 20 anos de gestão colegiada. Então a Secretaria de Saúde tem Colegiado de Gestão do Nível Central, tem os Colegiados de Gestão do Nível Distrital, os Colegiados dos Coordenadores, as Câmaras Técnicas Colegiadas, de Urgência e Emergência, de Saúde Mental, de Saúde da Criança. No caso, o modelo de gestão é o da co-análise, co-decisão, da co-avaliação, da co-implementação, enfim, da gestão participativa da qual Campinas é um dos modelos para o Brasil e este modelo nós vamos continuar seguindo. O Departamento, coerentemente com esta tradição, com este acúmulo da Secretaria Municipal de Saúde tem uma gestão colegiada. Temos a reunião mensal do colegiado com todas as Áreas que compõem o Departamento de Saúde e temos também os Grupos de Trabalho, também com participação dos técnicos envolvidos que definem e apresentam propostas que são aprovadas, validadas, no coletivo, no colegiado de Departamento, depois são encaminhadas para o Colegiado de Gestão da Secretaria e também para os colegiados distritais e CMS. Nosso modelo e nosso método de gestão é a gestão participativa, é a gestão colegiada na lógica da co-gestão.

Carta: Gostaria de passar uma mensagem aos trabalhadores do SUS?

Sim, continuemos todos, nós profissionais de saúde, usuários e gestores, no movimento por um novo SUS, como formuladores e reformadores,  como autores e sujeitos, com intensa implicação prática em nossos fazeres cotidianos, pela qualificação e efetivação do SUS como uma política de defesa da  vida de todos e de qualquer um.

Confira também:

. Carta da Saúde – Edições Anteriores

. Blogue do Núcleo de Comunicação: http://suscampinas.wordpress.com/

. Blogue do Conselho Municipal de Saúde de Campinas –  http://cmsaudecampinas.wordpress.com/

. Portal do SUS Campinas –   http://www.campinas.sp.gov.br/saude/

. Prefeitura de Campinas –  http://www.campinas.sp.gov.br

. Secretaria Estadual de Saúde –  http://www.saude.sp.gov.br

. Ministério da Saúde – http://www.saude.gov.br

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