Carta da Saúde

Notícias do SUS Campinas

Ciranda das Ervas estimula o uso de plantas medicinais e aromáticas no SUS Campinas

Cultivo de ervas medicinais e aromáticas é realizado em terreno junto ao Centro de Reabilitação

Eloísa mostra ervas medicinais e aromáticas cultivadas no Centro de Referência em Reabilitação

 A Ciranda das Ervas é um momento do SUS Campinas no qual as pessoas, para participarem, precisam de um ingresso. Uma muda de planta medicinal ou aromática. Com ela, a pessoa participa de um encontro que é realizado a cada dois meses no Centro de Referência de Reabilitação “Jorge Rafful Kanawaty”, o CRR. Na Ciranda, a médica Eloísa Pimentel tira dúvidas, orienta e ela mesma admite, aprende sobre esta tradição milenar que corre risco de se perder. As plantas medicinais trazem a química necessária a determinados tratamentos. Na última quarta-feira, dia 25 de agosto de 2010, a reportagem da “Carta da Saúde” entrevistou a médica e visitou a horta do CRR logo após a Ciranda. Confira a entrevista: 

Carta da Saúde – Em um mundo tão tecnológico como o atual, qual é a importância de estimular o uso de ervas medicinais e aromáticas? 

Eloísa Pimentel – No mundo atual, estamos bem distanciados da natureza. Antigamente todo mundo tinha suas plantas no quintal, a avó conhecia, as famílias usavam para tratar doenças mais corriqueiras e hoje em dia não. As pessoas moram em casas, mas a terra está cimentada, ou moram em apartamento, ou mesmo quem mora em fazenda, não têm um espaço reservado reservado para isso. Então é muito importante que a gente resgate esse contato, esse conhecimento, e que estimule principalmente as crianças, nas escolas, com as famílias, para retomar mesmo esses conhecimentos dos idosos, das pessoas que conhecem. Quando a gente faz as nossas reuniões as pessoas falam: ‘Ah, meu avô conhecia, minha avó conhecia …’. E cadê esse conhecimento? Morreu com a pessoa. Então eu sempre estimulo: ‘Já que você se interessou pelo assunto, pelo menos vá até ele, entreviste, grave, tire fotos, tire fotos das plantas, documente, para poder, cada vez mais, acumular e distribuir esse conhecimento de fato!’. Não é só olhar na mídia, em que aparece quando em quando uma planta “milagrosa”. Muitas vezes a gente tem até que desconfiar. Tem um cunho do comércio, alguma coisa assim aí por trás. É o conhecimento genuíno que a gente tem que retomar. Por isso que a Fitoterapia, o uso de plantas medicinais, é reconhecido inclusive pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso porque é um conhecimento milenar. É necessário passar esse conhecimento para outras gerações e de usar esses recursos, que são recursos naturais e que a gente está perdendo, estamos plantando outras coisas, como a soja, ou desmatando para colocar o gado. O Brasil é o país mais rico em plantas. Tanto na biodiversidade(variedade de espécies de plantas), que é o caso da Amazônia, quanto na biodiversidade química, que é o caso do Cerrado. São plantas raras, são plantas muito potentes. Só que desmatam, põem o gado, e assim se perde as plantas. E esse conhecimento é perdido junto com elas. O Brasil é tão rico em plantas como em conhecimento. Além de tudo, a gente teve aqui uma grande miscigenação de culturas. A gente tem as plantas que os índios usavam, as que os africanos e os europeus trouxeram. O europeu conhecia, por exemplo, a melissa, uma planta que não é nativa do Brasil, foi introduzida aqui. Eles perceberam que algumas plantas que havia por aqui tinham o mesmo cheiro das de lá, como é o caso da Lippia Alba, também chamada de melissa ou cidreira. Tinham a mesma característica ou tinham efeitos semelhantes. É o caso, outro exemplo, da arnica. A arnica montana só ocorre na Europa, nos Alpes suíços, onde ela floresce. Mas nós temos as nossas arnicas que também tratam a dor. E atenção, pois não se deve fazer chá destas plantas, somente uso externo. 

Carta da Saúde – Ela cresce na Serra da Mantiqueira, não é? 

Eloísa – Sim, lá tem, e temos a nossa arnica paulista, de nome botânico Porophyllum ruderale. O nome arnica é o nome popular, o nome comum. Eu costumo brincar que é o apelido que se dá para as plantas. Porque a planta mesmo, tem uma identificação botânica, gênero e espécie. 

Carta da Saúde – Nome e sobrenome … 

Eloísa – Isso mesmo. Nome e sobrenome. Isso é interessante. Nessas reuniões aqui no Centro de Referência em Reabilitação, onde realizamos a Ciranda das Ervas, a gente está praticando a proposta justamente de trocar estas informações, essas experiências. E é uma coisa muito simples de fazer. Reunimos as pessoas e a entrada, o “ingresso”, é uma mudinha que a pessoa traz, de uma planta que ela conhece, e daí ela vai contando para que serve aquela planta, como que ela usou, como preparou, se ferveu, filtrou, se bateu no liquidificador, ou se fez um suco ou chá. Hoje (quarta-feira, 25 de agosto de 2010) tivemos bastante troca de experiências aqui. São relatos das pessoas. E elas falam da cura, em quanto tempo ela se dá. Tem relatos recorrentes sobre pessoas que iam fazer cirurgia de pedra no rim, e que tomou um chazinho e não precisou de cirurgia. Tem muitos casos assim. 

Carta da Saúde – Qual é o chá que elimina pedra no rim? 

Eloísa – O quebra-pedra. Inclusive tem comprovação em pesquisa na escola Paulista (Faculdade Paulista de Medicina da Universidade de São Paulo, USP) feita pelo Dr Nestor Shor e equipe que comprovou a ação do chá de quebra pedra em cálculos renais. É um recurso natural que temos e um recurso terapêutico grande, que precisa que se e tenha também um olhar científico, com estudos, com comprovações porque são potentes medicamentos. No caso, por exemplo, de uma gripe ou de uma dor de garganta. As pessoas dizem: ‘Ah, mas então a planta serve para tudo?’. E eu respondo: ‘Olha, muitas plantas servem para muitas coisas’. É um recurso muito grande que a gente tem. Na Ciranda das Ervas essa troca verde que a gente faz é muito interessante, eu sempre aprendo alguma coisa. A gente precisa ter humildade para aprender com as pessoas porque elas vivem isso. Muita gente não tinha acesso à médicos ou medicamentos. Atualmente tem-se mais acesso aos exames necessários, tem um diagnóstico, eu defendo tudo isso! Na hora do tratamento pode-se usar um fitoterápico que é um medicamento. É um medicamento reconhecido, tem legislação. Mas não precisa também ser só o fitoterápico feito pela indústria. Pode ser a planta medicinal que tem todo um estudo a respeito, existe uma experiência grande com as farmácias vivas, como em Fortaleza, que o professor Abreu de Mattos começou. É preciso estudar a planta, ver se ela não é tóxica, estudar as moléculas que ela tem. A planta é um laboratório vivo, dentro dela você encontra muitas moléculas químicas que foram comprovadas como eficientes, é como os mais simples chamam de a “Virtude” da planta. 

Carta da Saúde – O que muda é a forma … 

Eloísa – Sim, no caso de um boldo, por exemplo, pode-se amassar as folhinhas e tomar com água, ou fazer uma extração com água quente, que é o chá. Você cozinha a planta se ela for mais dura, no caso de algumas raízes ou sementes. Algumas não basta ferver, mas é preciso cozinhá-las. Quando a planta tem cheiro, o princípio ativo, é volátil, evapora, então não se ferve, você só a coloca em água quente. E a gente tem aqui em Campinas a Botica da Família que é um bom exemplo para o Brasil porque é uma farmácia de manipulação própria que tem cinco anos e agora está passando por uma ampliação e fornece gratuitamente os medicamentos, elaborados com qualidade. São treze medicamentos e um deles é a arnica, que existe em creme, gel, ou a calêndula que também temos a planta aqui em nossa horta, no CRR, para as pessoas conhecerem. O que Campinas está fazendo é garantir medicamentos de qualidade para que os usuários tenham acesso. 

Carta da Saúde – Há uma delas, inclusive, que não deve ser usada em fratura exposta? 

Eloísa – Isso. No caso da arnica, deve-se usar somente com pele íntegra. Por isso sempre se deve lembrar que tudo tem a sua indicação, o seu tempo de tomada, não é pra usar para sempre, tem que ter a dose certa, um bom acompanhamento. Geralmente não tem efeito colateral, mas algumas plantas podem ter. A interação medicamentosa existe. Quanto mais você manipula a planta mais você concentra os princípios ativos, por exemplo, o extrato seco de ginkgo biloba que é um vasodilatador. Ele já foi bem trabalhado e está bem concentrado o seu princípio ativo ali. Inclusive este é um dos medicamentos que a gente tem na Rede. Ele é ótimo vasodilatador, para a circulação, atua a nível cerebral, melhora o zumbido, problemas comuns em pessoas idosas, mas também tem suas contra-indicações, se a pessoa tiver algum problema de coagulação, ou se vai para uma cirurgia, deve-se avisar o médico e suspender o uso antes. Existem alguns chás que não são recomendados para pessoas que fazem uso de medicamentos antirretrovirais, pois a via de metabolização hepática é a mesma do antirretroviral. Outro exemplo é o Hypericum perforatum (erva-de-são-joão) que é um medicamento para a depressão. Por isso é importante que o profissional da Saúde tenha acesso ao conhecimento. Porque existe preconceito? Por falta de conhecimento. A Fitoterapia ainda está pouco presente nos currículos dos profissionais de Saúde. 

Carta da Saúde – Isso influencia o profissional, inclusive durante sua formação? 

Eloísa – Sim. As nossas plantas, toda esta riqueza é muito pouco estudada. Mas isso vem sendo estimulado agora pelo Ministério da Saúde, que traz as leis para a Fitoterapia, para desenvolver mais o estudo. A Alemanha atualmente é o país que mais usa Fitoterapia, também a França. E se paga caro pelo fitoterápico, são medicamentos de qualidade, de eficiência comprovada cientificamente. Tem lei para isso! No comércio ainda existe coisa de má qualidade. Já foi tirada muita coisa ruim que existia e ainda precisa melhorar a produção. Mas precisamos diminuir o preconceito, difundir o conhecimento, aumentar os estudos, disponibilizar esses estudos, porque se não, fica só no ‘ouvi dizer, ouvi falar’. Então alguém fala: ‘Ah, mas usou tal coisa e viu o que aconteceu’. Está bem. Qual foi a dose que a pessoa usou? Existe, muitas vezes, mais propaganda negativa do que positiva. É uma coisa de comunicação, também. Hoje mesmo, estiveram aqui mais de 30 pessoas. Todos deram seus depoimentos. Não teve um só que tenha sido ruim. Isso foi espontâneo. É cultura popular.

Carta da Saúde – E a Ciranda das Ervas acontece com que periodicidade?

Eloísa – A Ciranda das Ervas é realizada a cada dois meses e a gente divulga entre nossos usuários, aqui da Reabilitação. Mas a gente também pode fazer em outros locais. Nosso trabalho é essa orientação baseada nas pesquisas atuais.

Carta da Saúde – Como que os trabalhadores e gestores da Rede SUS Campinas podem participar e agregar nesta discussão e nestas práticas? 

Eloísa – Quem quiser e estiver interessado pode nos contatar. Para começar este trabalho realizamos treinamentos com vários médicos e enfermeiros. Todo Centro de Saúde deve ter um memento terapêutico que é o manual dos medicamentos que são manipulados pela Botica da Família. Nos próximos dias eu vou receber aqui um pessoal a Noroeste, depois eu tenho uma data para ir até lá falar com a comunidade. Nno Centro de Referência à Saúde do Trabalhador tem uma horta de plantas medicinais. Lá foram realizadas Cirandas e estudos sobre plantas para dor.  Todos os Estados têm um programa de fitoterápicos, muitos municípios também e a cidade do Rio de Janeiro tem três farmácias de manipulação. O trabalho é multiprofissional,  conta com a participação da equipe do CRR na horta, tanto nos cuidados da horta, quanto no desenrolar das atividades desenvolvidas, como a Ciranda das ervas e também nos grupos terapêuticos com usuários. Contamos também com a ajuda de a ONG Novo Encanto, e com a ajuda de voluntários que muito contribuem com a manutenção e ampliação do trabalho.

Dê sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

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4 thoughts on “Ciranda das Ervas estimula o uso de plantas medicinais e aromáticas no SUS Campinas

  1. Pedro Melillo de Magalhães on said:

    Muito interessante esta iniciativa de encorajar a retomada do uso das plantas medicinais em melhores bases. Parabens pela Ciranda das Ervas, seus organizadores, participantes e apoiadores.

  2. walterly moretti accorsi on said:

    Parabéns pela iniciativa sempre pioneira e tão importante. Com admiraação Walterly

  3. Rodolfo Schleier on said:

    Um trabalho sério, que proporciona a troca de experiências entre os participantes. Muitos se esquecem de que a ciência se desenvolveu assim, graças à observação da natureza. Parabéns a todos.

  4. rogeria misorelli on said:

    Olá eloisa Td bem?
    Vc não imagina como estou contente por ver continuar seu trabalho…e divulgar!
    Vc estaria disponível para vir conversar com a equipe do CS Nova América da região SUl, para quem sabe iniciarmos a ciranda aqui?
    Aguardo retorno e muitas Estimas
    Rogéria Misorelli

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