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CS Rosália realiza atendimento domiciliar semanal às puérperas

Equipe do Centro de Saúde do Jardim Rosália, em Campinas

Equipe do Centro de Saúde do Jardim Rosália

O Centro de Saúde do Jardim Rosália, na região da Vila Padre Anchieta, na Norte, desenvolve desde o dia 19 de janeiro de 2010, um programa especial de visita domiciliar às puérperas. A atividade é realizada pela ginecologista, uma técnica de enfermagem e uma agente comunitária de saúde.  O objetivo é identificar possíveis desajustes da interação mãe-bebê nos primeiros dias pós-parto.

De acordo com a equipe do Rosália a prioridade “são as mulheres mães de primeira viagem” ou seja, as mulheres que são mães pela primeira vez. E principalmente as adolescentes. As visitas domiciliares ocupam apenas uma hora por semana da agenda da médica, mas foram capazes de detectar problemas como dificuldades no aleitamento materno, com risco de desmame precoce. Além disso, são notados se há cuidados inadequados com o recém-nascido, como por exemplo agasalhar demais em pleno verão, não cortar as unhas do bebê, ou não limpar o coto umbilical por medo.

Todas estas visitas já realizadas aumentaram o vínculo das puérperas com os profissionais de saúde, abrindo um espaço de acolhimento para as mães nesta hora de incertezas e inseguranças, ocasionadas por uma avalanche de novidades para estas mulheres. Confira na sequência as entrevistas com Adriana Yoshida Olímpio, médica, Marilsa Sebastiana Arantes de Souza, auxiliar de enfermagem e Telma Rosana de Morais, agente comunitária de saúde. 

Carta da Saúde – O atendimento domiciliar às puérperas é uma iniciativa desta unidade?

Adriana – Sim. É uma iniciativa que está em caráter experimental, porque não faz parte do protocolo da Secretaria de Saúde de Campinas, os ginecologistas estarem indo ao domicílio das puérperas. Em princípio faz parte do protocolo, o clínico e o médico da família realizarem as visitas aos pacientes. A nossa preocupação é tentar fechar um ciclo, desde a gravidez até o puerpério, na assistência global à paciente. Então, nos acompanhamos a gestante durante os nove meses de gravidez, e assim conseguimos fortalecer o vínculo. Este trabalho teve início por considerarmos a existência de algumas brechas na fase do puerpério, em que a gente não estava oferecendo a assistência que gostaria. Muitas vezes acontecem complicações, intercorrências, por exemplo, um desmame precoce por falta de informação, por dificuldades da mãe, então iniciamos este atendimento. Inicialmente pensamos no aleitamento materno, das agentes de saúde visitarem os domicílios para orientar, prevenir este desmame precoce e a entrada de leite artificial sem necessidade, devido a falta de informações ou por desamparo. Depois que as gestante ganha o bebê ela só volta, a princípio, 40 dias após o parto. E nestes 40 dias, muitas vezes, ela acaba introduzindo o leite artificial, ou tendo algumas complicações.          

Carta da Saúde – Vocês avaliaram que este é um período crítico?

Adriana – Isso. E a vulnerabilidade tanto do bebê quanto da mãe é muito maior nos primeiros dias após o parto. Como a nossa população é predominantemente de pessoas jovens, então essas mães são, muitas vezes, adolescentes, estão abaixo dos 18 anos, é a primeira gestação, portanto estão muito vulneráveis. Muitas vezes são pessoas que vieram de outros estados, não sabem o que fazer após o bebê nascer, e  acabam adotando algumas condutas por que um conhecido ou um parente disse para fazer algumas coisas sem orientação da equipe da Saúde. 

Carta da SaúdeQual a avaliação de pelo menos seis meses desta experiência?

Adriana – A experiência está sendo muito válida tanto para a equipe de saúde quanto para as mulheres atendidas. Estamos conseguindo melhorar cada vez mais a nossa interação com a nossa população.

Carta – As mulheres atendidas demonstram esta aprovação?

Adriana – Sim, nós chegamos nas casas e sempre somos bem recebidas, convidadas a entrar, conhecer o bebê,olhar o quarto que foi preparado com tanto carinho. Nesta hora elas colocam suas dúvidas e tentamos esclarecer. E poder atuar no domicílio delas acrescenta confiança à relação com a equipe de saúde. Enfim, acho que estas mulheres estão bastante dispostas a receber estas visitas.

CartaVocê considera que, com este vínculo com a equipe, aumenta a aproximação com a unidade de saúde de forma geral?

Adriana – Esta é a nossa preocupação. Demonstrar que estamos dispostos a ajudar e que elas possam vir perguntar.

Carta – Qual é o recorte, vocês atendem a população menos favorecida?

Adriana – Procuramos visitar todas as puérperas.

Carta – E vocês conseguem?

Adriana – Sim, a gente consegue.

Carta – Quantas vocês estão acompanhando?

Adriana – Em torno de 40 a 50 gestantes. Não é uma população muito grande. Há Centros de Saúde com uma quantidade muito maior de gestantes e puérperas em acompanhamento.

Carta – Mas mesmo assim, organizar visitas a 40 pessoas é uma coisa complexa, não?

Adriana – Neste caso não é, pois não são todas as semanas que temos um recém nascido novo. As visitas ocorrem uma vez por semana, com a duração total de uma hora. Então aproveitamos para revisitar aquelas mulheres que estão em situação de maior vulnerabilidade. Além da rotina do trabalho que envolve a orientação sobre o aleitamento materno, a prevenção dos acidentes, orientações sobre cuidados básicos com o recém-nascido, conseguimos detectar algumas complicações até mesmo não esperadas que, talvez, se não tivessemos ido ao domicílio, elas não teriam vindo aqui para relatar. Talvez, se dirigissem a um pronto-socorro, já com um agravante da situação. Com estas visitas conseguimos, por ex, diagnosticar mastite, que é uma infecção da mama. A mãe estava tendo a infecção e estava demorando a nos procurar. Foi tratada com antibiótico e  melhorou, continuou amamentando o bebê. Tivemos também um caso de infecção na incisão da cesárea, onde a demora em procurar atendimento médico foi por medo de uma internação hospitalar, e assim, ficar separada do recém nascido. Felizmente neste caso a mãe foi internada com o bebê e pôde ser tratada da infecção, mantendo o aleitamento materno. Em outro caso foi feito o diagnóstico de trombose hemorroidária, a mãe estava em uso de antibióticos, orientada por farmacêutico. Ela foi encaminhada ao PS da UNICAMP, onde optou-se por tratamento clínico, foi orientado retorno ao PS para reavaliação, mas a paciente foi acompanhada na UBS, tendo regressão espontânea do quadro.

Carta da Saúde – Porque a visita domiciliar às puérperas?

Telma – O que eu considero importante neste programa de visitas domiciliares às puérperas é o fato de chegarmos mais perto das adolescentes que têm maiores dificuldade no lidar com as crianças, pois ainda são imaturas para esta tarefa. Isto também acontece com as mães de primeira viagem de maneira geral, mas na adolescência, as dificuldades são maiores. Elas pensam: “Não vou dar conta, meu leite não será suficiente para sustentar o bebê”. Então essas nossas orientações são de grande valia neste momento da vida dessas adolescentes.

Carta – O que você sente quando vai às casas dessas adolescentes?

Telma – Eu sou mãe, então é como se eu estivesse indo lá para visita a minha filha. Eu fico pensando: ‘Que bom que eu tirei uma dúvida que ela tinha’. Que bom que isso ainda é possível aqui. A gente sabe que muitas não conseguem. Nem a mãe da adolescente está por perto, às vezes está longe, em outro estado, ela não tem sequer uma amiga ali por perto … Então se a gente pode fazer isso, enche o coração de alegria.

Carta – E você pensa que elas não têm essas informações por falta de acesso à cidadania?

Telma – Eu acho que não falta orientação na escola, por exemplo. Não falta orientação nos meios de comunicação. Está faltando um pouquinho é que as pessoas parem para pensar. E é quando eles se acham nesta situação é que pensam: ‘Pôxa vida, eu poderia ter prestado atenção e agora eu estou aqui sem saber o que fazer’. Eu acho que o problema está na correria e no jeito que é a vida de hoje,  em que as pessoa não param para prestar atenção nas coisas. Por vários motivos as pessoas não conseguem parar para prestar atenção nas informações que estão aí. É isso que faz com que essas mulheres fiquem sem a informação que precisavam, às vezes até para saber o melhor momento de ser mãe e se é isso mesmo que elas desejam. Então não é simplesmente a falta de informação. É a situação delas.

Carta – E você concorda com isso Marilsa?

Marilsa – Sim, eu penso que não falta informação, mas a prática é diferente da teoria. A partir do momento que a criança nasce demanda cuidados que antes eram totalmente desconhecidos por estas mães. Portanto, estar ali, no ambiente delas, onde se sentem protegidas, fortalece o vínculo com os profissionais de saúde, facilitando assim o ato de cuidar.

Carta – O que você espera com esta nova prática da equipe do Rosália?

Marilsa – Melhorar o nosso cuidado, fazer dele o mais humanizado possível, cuidando da puérpera e do recém-nascido dentro da sua casa, conhecendo sua realidade. Afinal saúde da família é isso.

Dê sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

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One thought on “CS Rosália realiza atendimento domiciliar semanal às puérperas

  1. edison martins da silveira on said:

    Parabens pelas materias , que bom que estamos mostrando o que os nossoa serviços estao fazendo de bom para a nossa população

    Dr Edison M da Silveira
    Coordenador do Distrito Saúde Norte

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