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Enfermagem, maior categoria profissional do SUS Campinas, tem nova Coordenação

Alexandra, nova coordenadora da Enfermagem

A Enfermagem é a maior categoria profissional da Saúde. São 1.278 auxiliares, 469 enfermeiros e 144 técnicos de enfermagem. São 1.891 pessoas. É quase um terço de todos os trabalhadores da Rede, atuando nos mais diversos serviços, sem contar os do Hospital Mário Gatti, que é uma instituição com autonomia gerencial. Esta área agora tem uma nova coordenação, Alexandra Barbosa, enfermeira que já trabalhou nos Centros de Saúde São Marcos e Santa Mônica recebeu a “Carta da Saúde” para falar desta área imprescindível para a Saúde Pública.

Mineira de Poços de Caldas, formada em Enfermagem pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) com pós-graduação em Saúde Pública e Saúde da Família, pela UNICAMP, comenta –  “aqui no Departamento de Saúde estamos organizados em coordenações, hoje a posição que eu estou ocupando é de Coordenadora da Enfermagem ”, explica. Confira a entrevista na sequência:

Carta da Saúde: Qual a sensação de assumir a Coordenação que envolve uma categoria tão grande?

Alexandra Barbosa: Assumi  na segunda-feira, dia 2 de agosto,  e hoje faz uma semana que eu estou trabalhando.  Quando iniciei minha vida profissional me voltei para uma área bem especializada. Eu trabalhei muito tempo em hospital, na UTI neo-natal. Na Unicamp fiquei quase oito anos. Em 1997  prestei um concurso da Prefeitura, por insistência de uma amiga que já trabalhava comigo na Unicamp e estava trabalhando no C.S. Sta Mônica. Passei, e comecei a dividir o meu tempo entre a UTI e a unidade básica. Fui trabalhar no São Marcos, onde fiquei por uns três anos e depois como enfermeira no Santa Mônica. Trabalhei no Distrito de Saúde Norte, na equipe de Apoio, até por volta de 2003 e, em seguida,  coordenei o Centro de Saúde da Vila Padre Anchieta. Em dezembro de 2006, comecei a usufruir de uma licença sem vencimentos.

Voltar e estar ocupando uma posição tão estratégica na Secretaria de Saúde  é ao mesmo tempo estimulante, prazeroso e um desafio tremendo. É um espaço de aprendizado e possibilidades. Espero poder contribuir positivamente.

Carta: Tenho a informação de que, dentre as ações que você tem priorizado, está a finalização da revisão do Protocolo de Enfermagem, a sua repaginação, e também do Manual de Esterilização …

Alexandra: Antes de entrar nestes assuntos, eu quero falar um pouco sobre como está organizado o trabalho da enfermagem na Secretaria de Saúde, quem trabalha junto, pois eu não estou sozinha. A enfermagem já está organizada há um certo tempo, a coordenação vem trabalhando assim: existe uma Câmara Técnica de Enfermagem que são os representantes dos Distritos, que fazem a gestão desse processo de trabalho junto comigo, são enfermeiros apoiadores dos distritos que compõem esta Câmara Técnica onde a gente planeja, resolve as diretrizes, propõe metas, enfim. Além desta Câmara Técnica nós temos as comissões. Por exemplo: Comissão de Esterilização; de Marcas e Produtos; de Curativos.  Os participantes destes espaços tem trabalhado contínua e arduamente. As comissões são formadas com representes dos Distritos e  das Unidades. Neste  momento, estamos finalizando uma revisão do Protocolo de Enfermagem, com o objetivo de nortear as ações de enfermagem que ofertamos na rede, e do Manual de Esterilização. O objetivo é disponibilizar material que ajude a qualificar esta prática, que está diretamente ligada às questões de segurança do paciente, no que se refere a não transmissão de infecções. A repaginação dos protocolos e manuais de enfermagem é uma das estratégias para alcançarmos um objetivo maior, a qualificação das nossas práticas. Aliás, crucial neste momento, em que uma quantidade significativa de novos profissionais está passando por acolhimento e ingressando na rede. 

Carta: E este trabalho de esterilização é invisível à maior parte da população, você não considera assim?

Alexandra: Sim. É invisível. E por ser invisível para a população e não haver captação dos dados  do que está sendo produzido, não há uma valorização do que está sendo realizado. Neste caso, a esterilização, é um trabalho feito para proteger a população. É importantíssimo, e se realiza através de ações mais duras e objetivas em termos organizacionais, ou seja, é necessário  um protocolo que direcione as ações das pessoas. Além disso, estão chegando materiais novos. O que há de novidade nesta área estamos tentando trazer para a Rede. Em aproximadamente um mês as unidades começam a receber um teste biológico, que é um teste que indica se o material está ou não está bem esterilizado. A gente já utilizava um, cujo resultado saía em 48 horas. Nós estamos mudando  para um teste que nos permite saber em apenas três horas o resultado. Isso qualifica e traz mais agilidade ao trabalho. Em setembro se intensificará os trabalhos com a Comissão de Marcas e Produtos que organizará a programação de compra do material de enfermagem para 2011.  Nosso objetivo central é melhorar a qualidade dos materiais que usamos e ofertamos aos nossos usuários. Qualificar as práticas de enfermagem  passa por questões como: melhoria das condições de trabalho,  dos materiais, ampliar a escuta sobre o cotidiano nas unidades, ofertar oportunidades para capacitação, melhorar a gestão do dia a dia. Nesta linha, pensar em quem é esta pessoa que está trabalhando, por exemplo, na Central de Esterilização? Como é este trabalho?Quais são suas necessidades e percepções? E principalmente, o que seu trabalho significa para o SUS e para o usuário?  

Carta: E qual a melhor maneira de interação dos trabalhadores desta categoria com a Coordenação da Enfermagem?

Alexandra: A melhor maneira , para mim, é eu não estar atuando somente no Nível Central, mas também junto aos Distritos e Unidades. Quem está nesta posição precisa ter uma mobilidade maior para percorrer a Rede, para ter uma escuta mais ampliada, para ver como as coisas são “in loco”. Este é um dos meus objetivos. Os trabalhadores podem e devem participar  das comissões, que são formadas por pessoas indicadas pelos Distritos e que podem ser representantes de unidades. Outros fóruns importantes de participação são, as reuniões de equipe de referência, de equipe de enfermagem, Núcleos de Saúde Coletiva e Colegiados Gestores de suas unidades; além das reuniões de enfermeiros e discussões clínicas que acontecem nos Distritos de Saúde, não poderia de deixar de lembrar sobre a importância da participação dos trabalhadores nos Conselhos de Saúde.  É dessas conversas e entendimentos que as pessoas precisam participar.

Alem dos espaços formais ainda existe as possibilidades de contatos diretos através do Departamento de Saúde, e-mails e telefone. Me coloco a disposição de todos.

Carta: Qual o motivo dessa licença?

Alexandra: Eu me casei. O meu marido já morava na Inglaterra há muito tempo. Ele é brasileiro mas morava lá e a gente precisou resolver se ele vinha ou se eu ia. Eu tinha uma expectativa de morar um pouco fora do Brasil, conhecer outra cultura, então fui para estudar o idioma e tentar me inserir de alguma forma no sistema de saúde. Mas sempre com a perspectiva de retornar e reassumir meu trabalho.

Carta: Como é a saúde pública na Inglaterra?

Alexandra: Todo o sistema de saúde do país é regulado pelo poder público. É o NHS. Todo mundo no país é usuário do “SUS” nesta versão inglesa. Uma parte menor da população possui convênios, que são complementares ao serviço público, regulados pelo NHS.

O NHS é muito valorizado pela população, e considerado uma conquista e motivo de disputa política e esta sempre na mídia. O modelo de atenção é o de Saúde da Família

Carta: Funciona como a regulação da agência de saúde complementar no Brasil?

Alexandra: Mais ou menos. É como se fossem todos prestadores de serviços ao NHS. Mesmo  tendo um convênio privado você não pode usá-lo se não passar por um “GP”, que é o médico da saúde da família, ele pode te dar um encaminhamento para você usar o seu convênio caso entenda que isto é necessário.

Carta: Isso significa que se eu, mesmo tendo condições de pagar um convênio, não posso ir diretamente a esta instituição ou profissional de saúde privada?

Alexandra: De cara não. Mas você contrata o convênio que você quiser. Vou dar um exemplo, a minha experiência com este sistema foi a de ser uma usuária. Eu tive um filho lá. Fiz o pré-natal e tinha um convênio que era da empresa em que meu marido trabalhava, mas eu não pude usá-lo, porque o pré-natal e o parto são realizados no sistema público, isto vale para todos. Algumas ações estratégicas são oferecidas só pelo NHS, os convênios não cobrem, pagar uma consulta particular lá é bem complicado. Quase que a totalidade dos bebês são acompanhados e nascem no sistema público.

Carta: E a qualidade?

Alexandra: Nós pensamos no sistema inglês como um exemplo para o nosso trabalho aqui, é sem dúvida um dos nossos modelos de referência, assim como o Canadá e alguns outros países europeus. O sistema de saúde inglês está no ideário de muitos trabalhadores e gestores da rede pública. Na minha opinião,  eles conseguiram grandes avanços nas áreas financeira,  administrativa e na gestão do sistema em geral. Com investimentos grandes na formação de profissionais gestores, na avaliação, na regulação dos gastos e na transparência do sistema . Enquanto usuário, qualquer pessoa pode entrar no sistema e saber o quanto se gasta em cada setor e com o que  se gasta, consegue saber o quanto será investido em uma ação nova, e as avaliações do serviços está disponível para todo mundo. Por exemplo uma gestante, consegue ver a classificação das maternidades próximas de sua casa, é tudo muito claro, muito objetivo. Os cursos de formação para os gestores são ofertados de forma continuada. O NHS e apontado como um dos maiores contratantes de mão de obra do mundo.

Por outro lado, falta humanização, falta acolhimento, não no sentido de acesso, mas no sentido de como a pessoa é recebida, vista e sentida, inserida, incluída, e do cuidado com que ela é atendida, a aproximação, falta individualização, tudo é muito protocolar. É claro que, tanto lá como aqui, existem diferenças de acordo com a região do país onde você mora e até em qual unidade de saúde você esta cadastrado, mas pude observar que a questão de vínculo entre profissional e pacientes ainda representa problemas. Na Unidade onde eu estava cadastrada, por exemplo, isto era claro. Havia queixa entre os usuários sobre a rotatividade de médicos, a impossibilidade de se conseguir atendimentos sequenciais com o mesmo médico, etc

Mas era uma unidade que foi premiada em 2009 por excelência em gestão

Carta: Acesso existe, mas o sistema é de uma frieza…

Alexandra:  Em geral você não vai ouvir reclamações de que as pessoas não estão sendo atendidas, ou que não receberam respostas. Acredito que protocolos e normas são importantes, mas o olhar para cada individuo e suas peculiaridades é crucial. Na minha opinião falta atenção individualizada. Você se sente literalmente dentro de um sistema.  Eu trabalhei por algum tempo como voluntária em um hospital. Eles têm  hospitais locais, que são menores e vinculados a hospitais maiores. Eu trabalhei especificamente em uma ala de idosos. O que foi muito interessante. É um país com uma população idosa significativa e onde há problemas relacionados à saúde dos idosos que talvez, só agora, vamos começar a enfrentar por aqui. Eram pessoas muito interessantes, a maioria delas pertencem a última geração dos que presenciaram a II Guerra Mundial. Grande parte desses idosos, quando crianças, foram retirados dos pais e enviados para lugares mais seguros, em geral no campo, estratégia usada para protegê-los dos bombardeios e ataques dos quais as cidades eram os principais alvos. Alguns nunca mais viram suas famílias novamente. Eles traziam esta violência como fato marcante de suas vidas. Alguns já estavam de alta médica havia alguns meses, mas não podiam ir para casa por falta de cuidadores, ou porque a família não estava disponível para auxiliar nas tarefas domésticas. Muitos deles se queixavam de não serem ouvidos. Que só permaneciam porque estas eram as regras, etc.

Carta: Aqui a questão de violência é outra …

Alexandra: A nossa guerra aqui é outra. Esta questão da Segunda Guerra para nós é um fato muito distante. E eles vivem isso de uma forma muito forte, muito marcante. Minha experiência lá  foi também esta, de estar com as pessoas, fazer companhia, olhar para elas. Pois o que falta  muitas vezes é isso. Uma pessoa disponível para estar perto, próxima e ouvir o usuário.

Não só lá como aqui também.

Carta: Esta experiência revelou para você esta carência no sistema inglês?

Alexandra: Começou aí. Na minha opinião é desumanização. E talvez a gente esteja caminhando para aquilo. E não podemos deixar que isso aconteça aqui. Ainda dá tempo de fazer outras escolhas, temos outras opções. Agora, a estrutura física do sistema é o nosso sonho. Você chega em uma unidade pública, uma unidade básica, você faz o seu “check- in”, por exemplo, num visor, como se você estivesse num computador. Você seleciona alguns itens de identificação , toca na tela e aparece o agendamento, você confirma, entra e aguarda. Tudo bem, se você não conseguir ali, tem as recepcionistas para orientar. Você sempre está entrando em prédios bem cuidados, bonitos, agradáveis, equipamentos de ponta, não há falta de recursos materiais.

Carta: De qualquer forma os recursos materiais também são necessários, mas não é a frieza do sistema inglês que você quer trazer para cá, não é?

Alexandra: Pois é (Risos).

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4 thoughts on “Enfermagem, maior categoria profissional do SUS Campinas, tem nova Coordenação

  1. Fábio BH on said:

    Saudações e parabéns para a amiga Alexandra.

  2. Edison M Silveira on said:

    Felicidades Alexandra , sucesso e que bom que voce esteja de novo com a gente, trabalhando no SUS Campinas .Sempre me lembro de nosso trabalho apoiando em dupla algumas unidades , foi um grande aprendizado para mim.
    Um grande abraço

  3. carminha on said:

    Que boa notícia! Seja bem vinda de volta ao SUS Parabens e saudades

  4. Pingback: Espaço do Leitor « Carta da Saúde

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