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Caps AD são referência para tratamento de pessoas com problemas com álcool e drogas

O psicólogo Sander Albuquerque

Campinas possui dois Centros de Atenção Psicossocial (Caps) Álcool e Outras Drogas (AD) que são referência para pacientes com diagnóstico de transtornos mentais relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Um deles é o Caps-AD Independência, na região Sul, e o outro é o Caps-AD Reviver, que fica no Taquaral e é coordenador pelo psicólogo Sander Albuquerque, que na tarde de quarta-feira recebeu a reportagem da “Carta da Saúde” para explicar a política municipal de atenção a esta questão do álcool e de outras drogas. Confira a entrevista:

Quais os eventos que serão realizados em setembro pelos Caps AD de Campinas e porque eles estarão sendo realizados?

Para setembro nós estamos nos organizando, para dar visibilidade aos redutores de danos que chegam para incremetar as políticas de álcool e drogas nos dois Caps, tanto no Independência quanto no Reviver. Então, para setembro, nós vamos preparar uma abertura oficial para convidar a Rede, para os profissionais conhecerem o que é esse programa de Redução de Danos e a que que ele se propõe. E durante um sábado estamos pensando em fazer um evento para a comunidade mesmo, para a população, na região central, onde tem uma grande diversidade de pessoas, e com algumas falas públicas, com uma festa mesmo e com o trabalho de campo dos redutores de danos no Centro, neste dia, inaugurando a nossa chegada para população.

O que é o Caps AD?

O Caps AD é um Centro de Atenção Psicossocial para pessoas que têm problemas com o consumo de álcool e drogas. É uma política ministerial, que vem junto com a reforma psiquiátrica e prevê  ofertar o tratamento à população que enfrenta  problemas pelo uso de substâncias como o álcool e outras drogas. A proposta é trabalhar com projetos terapêuticos, entendendo que cada um tem uma demanda, uma necessidade, e que temos que particularizar os projetos e não pensar somente de uma maneira, por exemplo, trabalhar só com a proposta da abstinência, como se ainda idealiza muito nos tratamentos de dependência química. É lógico que é algo interessante, mas que nem todos conseguem aderir, e o nosso objetivo é oferecer o acesso ao tratamento a toda população que tem algum tipo de problema com uso de álcool e drogas. A maior parte desta população que chega aos nossos serviços é alcoolista, usuários de crack e cocaína, esta é a nossa maior demanda, buscamos trabalhar de acordo com a necessidade e a possibilidade de cada usuário, com construção de redes para a inserção, inclusão social e visando também a diminuição do estigma do usuário de drogas, que esse é um ponto importante.  Nós estamos num momento interessante de ampliação da rede de álcool e drogas na cidade, com a criação  de mais um Caps e a proposta é que tenhamos pelo menos cinco Caps, um em cada região, porque a gente entende que estar próximo da população é importante. A gente recebe pacientes da região Noroeste, que usa dois ônibus para chegar aqui no Taquaral, e outros dois ônibus para voltar para casa. Então, imaginemos pacientes que estão em síndrome de abstinência ou que estão um pouco alcoolizados, um pouco intoxicados, vão ter muito mais dificuldades para chegar ao serviço. Provavelmente eles vão parar no centro da cidade. Neste caso, estando no território, o acesso será facilitado para todo mundo, não é? E a Redução de Danos também é um braço do Caps. Existe uma grande parcela da população que chega até nós, com o desejo de realizar um tratamento relacionado ao uso de drogas, porém, tem uma parcela muito grande da população que não procura pelo tratamento, estão numa fase anterior.  São pessoas que não conseguem, na maioria das vezes, ver os prejuízos causados pelas  drogas e esse povo, esses usuários, estão nas ruas, estão na vida e, o redutor de dano, é o nosso acesso a essa população, a estas pessoas que não virão aqui no Caps, mas que, de alguma maneira, quando consomem a droga em excesso, têm algum prejuízo.  Como é que poderíamos propor uma redução dos danos causados pelo uso das substâncias quando o usuário não quer,  necessariamente, deixar de usar, mas como que ele poderia, por exemplo, diminuir? Em breve, teremos as casas de passagem,  que seriam casas transitórias, onde o usuário que tem uma rede social muito baixa, muito enfraquecida, está em situação de rua,  poderá permanecer de um a dois meses, desde que esteja em tratamento no Caps. 

E com relação a esta questão, como está a relação da população de rua com o SUS Campinas, e como o SUS Campinas está se organizando para atuar junto a esta população?

A população pode vir direto ao Caps AD, como demanda espontânea, e pode vir encaminhada pelo Centro de Saúde. É lógico que o mais interessante é que o usuário tenha, já, uma entrada na Unidade Básica, no Centro de Saúde. Isso para os exames clínicos, para o cuidado de toda a sua saúde. Quando não tem, ele pode vir nos procurar, e a gente vai fazer essa contra-referência para a unidade, entendendo que a unidade, responde por esse cuidado integral, principalmente das condições clínicas. Os alcoolistas têm muitos problemas clínicos. Essa ponte é de extrema importância para a população que está na rua.  E importante enfatizar que esta população que está na rua tem outras complicações que são muito mais sérias que o uso de drogas, a miséria, a própria violência de estar na rua, a falta de vínculos.

A abstinência, enquanto estratégia, ainda é utilizada?

As políticas públicas de álcool e drogas não têm mais a abstinência como (sugiro única) meta. Porque independente do país que você esteja, ou região, a abstinência, em qualquer lugar que seja, em qualquer país, ela tem um dado estatístico muito baixo. (Poucas pessoas conseguem ficar abstemias e quando você vai fazer essa pesquisa , com o passar do tempo ,  que o sujeito ficou abstêmio, esse número tende a diminuir) Esta frase precisa ser revista. O que isso nos diz? Que recaída faz parte. Que as pessoas recaem. E que as pessoas, de alguma maneira, consomem drogas e que, se a gente fica batendo nessa tecla, a gente vai perder esse usuário. Vai chegar uma hora que ele vai abandonar o tratamento porque ele simplesmente não está conseguindo ficar sem a droga. As políticas públicas têm hoje, como meta, a redução de danos apoiada em um projeto terapêutico. Se um usuário tem o desejo de e consegue ficar abstêmio, ótimo! Mas para a grande maioria que não consegue e, muitas vezes, não tem o desejo de parar mas tem o desejo de dar um tempo do uso  existem outras opções terapeuticas.

Ou que fez essa opção mesmo de uso?

Ou que faz a opção de usar. A gente acaba percebendo que tem usuários que, depois de um tempo, retorna ao consumo e isso é possível. Essa é uma possibilidade e a gente tem de criar estratégias entendendo que isso é real. Que isso acontece. Por isso que o nosso foco é o projeto terapêutico. Particularizado ( proponho Singularizado, como o uso que temos feito no Saúde da família Projeto Terapeutico Singular). A gente percebe que uma minoria muito pequena consegue ficar abstemia. Mas que uma grande maioria deles conseguem, muitas vezes, diminuir o consumo, para conseguir dar conta das outras coisas da vida. A família, o trabalho, ou ter uma rede social. A gente percebe que o sujeito que está num consumo muito excessivo de drogas, ele vai perdendo esses laços sociais, ele vai, com o tempo, se o consumo é muito excessivo, não conseguir acordar cedo para trabalhar, começa se distanciar da família, da mulher, ou o dos pais, dos filhos, dos amigos, começa perder os laços e a gente procura, no tratamento, esse retorno dos laços sociais, porque o nosso objetivo é focar o sujeito e não a droga. A gente tem um sujeito à nossa frente, que é único. E que tem uma complexidade própria. E não vamos ficar somente batendo na mesma tecla que é a da abstinência.  Esses usuários já carregam o estigma de que o alcoolista é vagabundo e o drogadito é bandido.

Ou as duas coisas …

Ou as duas coisas. Então isso é um estigma muito forte e que dificulta demais a procura. Daí a pessoa pensa: “Como que eu, que uso crack, que é uma droga ilegal, como que eu vou no postinho perto de casa falar que eu tenho problema com crack?”. O estigma só serve pra criar barreira! Barreira para o acesso. As políticas de álcool e droga trazem cada vez mais o usuário para o terreno da saúde e não mais da criminalidade. E algumas iniciativas estão legitimando isso.

É difícil lidar com um certo senso comum que leva as pessoas a insistirem em trazer essa discussão somente para o campo da criminalidade?

É difícil porque a gente esbarra em algumas questões em que a gente retrocede. A gente retrocede em algumas discussões que deveriam estar avançando. A gente percebe hoje que os usuários de drogas ilegais estão procurando mais a nossa ajuda e mais as unidades básicas. A gente identifica isso como uma maneira deles quebrarem os estigmas. O usuário de drogas está em tratamento de saúde.  Quando a gente tenta criminalizar, a gente retrocede porque coloca o usuário de droga como um criminoso e não como alguém que tem um problema de saúde e que precisa ser tratado do jeito que ele é. Então realmente é um retrocesso este de punir o usuário de drogas. O usuário de droga está muito mais no campo da saúde do que de ser tratado como um criminoso. Não é porque o sujeito usa droga que ele é um criminoso. Ou porque usa álcool é um vagabundo ou que são as duas coisas. Isso é preconceito. É estigma. E hoje a gente percebe que trazem um estigma muito forte as mulheres usuárias de álcool e drogas. Nos últimos anos está aumentando a procura, pelos serviços de saúde, da mulher usuária de drogas. E aí elas têm um estigma muito maior por ser mulher. O homem alcoolista faz a ingestão de álcool no bar. A mulher não. A mulher faz a ingestão de álcool na casa dela, quando o marido foi trabalhar e o filho foi estudar. E as mulheres, elas têm uma dificuldade ainda maior de procurar o tratamento. Mas isso vem mudando também, pois essa procura começou aumentar.

Porque isso está acontecendo?

Tem diversos fatores aí. Em termos de dados epidemiológicos o homem consome mais droga do que a mulher. Isso é um dado. Tanto drogas quanto álcool. Mas a gente também tem a tendência de esse número aumentar. As mulheres estão consumindo mais substancias psicoativas. E as mulheres, elas estão, de uma maneira mais tranqüila, procurando o tratamento. Quando você pega dados dos Estados Unidos, alguns dados batem: O homem procura ir ao tratamento mais fácil que a mulher, e a mulher procura menos. Então, não é uma realidade somente nossa. Tem algo aí na história que faz com que a mulher se identifique mais tardiamente com a questão da dependência química. E a mulher que nos chega também chega mais vulnerável. Ela já chega com um histórico de violência doméstica, prostituição, situação de rua, os filhos estão em abrigos. A gente recebe muitas mulheres pelo Conselho Tutelar. Com o Conselho estando mais próximo, mas atento às crianças, a gente também vem recebendo mais encaminhamentos de mulheres, mães, usuárias de drogas, que estão perdendo os seus filhos para o Conselho.

Os serviços de saúde, quando atendem as mulheres que têm vínculo com aquela unidade, podem estar mais atentos a esta situação?

A unidade conhece a população que tem.  Na unidade é possível mapear mais rapidamente que família tem esse problema, ou quem já vem começando ter. O paciente que chega aqui ele já vem com o agravo do uso de droga e de álcool. Mas muitas vezes você já pode identificar na unidade, por exemplo, quando um paciente vai para o dentista e está com hálito etílico. Você então consegue fazer diagnósticos mais precocemente. Por isso a importância de ligação desta população com a unidade básica de saúde.

Mas sem policiar, não é?

Sem policiar. A gente vem, por meio de matriciamentos e discussões, quebrando um pouco desse preconceito que ainda existe muito em profissionais da Saúde, ou de infantilizar ou, às vezes, reprimir o usuário. E não é dessa maneira que o paciente vai dizer qual é a real da situação dele.

Dê sua opinião: comunica.smscampinas@gmail.com

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One thought on “Caps AD são referência para tratamento de pessoas com problemas com álcool e drogas

  1. rosiane loureiro(redutora de danos) on said:

    Estou muito contente em poder fazer parte desta construção de uma nova politica, da qual propomos ao usúario a reduçâo,potêncializando outros valores que levão ao individuo a uma melhor estima de si mesmo! uma ação diferênciada do padraõ abistémico, que se cristalizou em muitos serviços que prestão assistência aos usúarios de droga,que infelismente tornaran-se inquestionaves!!
    Resumindo acredito muito em nossas ações!!! grande abraço a todos
    ROSIANE L>

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